Entrevista a Yiannis Balafas: “Há parceiros europeus que não querem que a Grécia seja exemplo”

Nº 1731 - Primavera 2015
Publicado em Grécia por: Ana Goulart (autor)

Yiannis Balafas foi reeleito como deputado do Syriza, nas eleições de Janeiro de 2015 e ocupa agora o cargo de segundo vice-presidente do Parlamento grego. A entrevista começa à hora marcada, numa pontualidade que recorda a britânica (herdada, talvez, de um tempo após a II Guerra Mundial, em que a Grécia era uma espécie de nova colónia do Reino Unido). Comparado com o Parlamento português, ao grego falta-lhe sumptuosidade. E os corredores de acesso aos gabinetes de trabalho dos deputados ao invés das anacrónicas alcatifas vermelhas, estão forrados de cortiça (será produto português?). O gabinete do segundo vice-presidente é simples. Amplo, no sentido de desafogado, com boa iluminação natural, em cuja decoração sobressaem uns quantos quadros na parede e umas quantas plantas. O segundo vice-presidente é simpático e não se furta às perguntas. Apenas lhes responde como político. Mesmo quando critica o comportamento das elites políticas portuguesas nas negociações do governo grego com os "parceiros europeus". No final, da entrevista, pede para ser retratado com a jornalista. Um pedido que embaraça a mesma, mas profissionalmente muito menos comprometedor do que o pagamento de um almoço ou jantar.

A ideia que persiste é a de que o Syriza está colocado entre a necessidade de dar resposta aos problemas que afligem o povo grego, cumprindo as promessas eleitorais que fez, e a resposta às condições impostas pela troika. É uma ideia correcta?

É. A ideia está correcta e é ela que tem estado presente nas negociações que o governo grego tem estado a desenvolver. O memorando foi negociado pelos anteriores governos e, independentemente de concordarmos com ele ou não, temos de o cumprir. No entanto, há também o nosso programa, que foi sufragado pelo povo grego e que também temos de cumprir. Assim, ambos os programas têm de ser cumpridos. E é por isso que o governo está a negociar um novo acordo e é por isso que dizemos aos nossos parceiros europeus e ao povo grego que não vamos conseguir cumprir o nosso programa a 100%, mas esperamos dos nossos parceiros europeus um novo acordo.

E como conciliar a crise humanitária que atinge o povo grego com as políticas de austeridade impostas pelos parceiros europeus?

No novo acordo que procuramos, não nos detemos neste ou naquele ponto, apenas dizemos que não aceitamos mais medidas (ou políticas) de austeridade. Em 2015, antes do Syriza tomar posse como governo, foram negociadas pelo anterior governo novas medidas de austeridade com os credores internacionais, que o novo governo recusou. Dissemos aos eleitores gregos que não haveria mais medidas de austeridade e cumprimos. Recusámos todos os novos cortes nas pensões, nos salários, novos cortes e despedimentos de trabalhadores nos serviços públicos.

A taxa de desemprego na Grécia é muito elevada. Como criar emprego com os constrangimentos impostos?

Temos de mudar completamente o nosso sistema produtivo. Neste momento, temos 1,5 milhões de desempregados, 30% da população activa tem empregos precários e destes 60% são jovens trabalhadores. Este cenário só se resolve com a uma alteração profunda do nosso sistema produtivo, com uma alteração radical na nossa economia, o que naturalmente não conseguimos ainda, porque esta alteração não se produz num prazo curto. Por isso, ainda não tomámos as medidas necessárias, porém, em muitos municípios estão a ser implementadas medidas, com vista à criação de emprego, utilizando fundos comunitários para tal destinados e privilegiando serviços públicos como a saúde, a segurança social e a educação. Há algo que quero deixar claro: o Banco Central Europeu (BCE) concedeu seis mil milhões de euros aos bancos gregos. Esperamos que no futuro haja igualmente dinheiro para a criação de empregos. O que é realmente importante é pôr a economia grega a produzir. Assistimos ao seu declínio e agora é necessário prosseguir de forma totalmente oposta para que a nossa economia cresça e não continue a afundar-se, porque tal corresponde a mais desemprego e a mais precariedade.

Neste momento, há muita gente sem emprego e sem apoio social do Estado. Como acudir às suas necessidades mais básicas?

A primeira iniciativa legislativa que realizámos foi no sentido de dar resposta à crise humanitária que o país vive, atendendo primeiro às situações mais urgentes: aos que não têm electricidade, aos sem-abrigo, aos que não têm dinheiro para comprar comida. Essa legislação foi aprovada e já está a ser implementada.

Os jornais mais vendidos e os canais de televisão mais vistos, logo mais influentes, insistem em que a Grécia está à beira da bancarrota. Isto é verdade?

Na Grécia estamos sempre a ouvir isso. Sempre. Logo após as eleições de Janeiro, os nossos opositores lançaram essa ideia e continuam a insistir nela, nomeadamente, os partidos que compunham o anterior governo [Nova Democracia e PASOK]. Aquilo que podemos dizer, inclusive aos nossos parceiros europeus, é que esse cenário não vai acontecer. Aliás, a maioria dos nossos parceiros europeus sabe que esse cenário não é favorável à Grécia, mas também não lhes é favorável. O problema grego não é apenas económico é, sobretudo, político. É importante que se perceba que os problemas com que a Grécia se debate atingem igualmente outros países da União Europeia. Acontece que há parceiros europeus que não querem que a Grécia seja exemplo. Não querem que outros povos, como o grego, digam: "temos problemas, mas o memorando e as políticas de austeridade não são a solução".

Como combater as políticas de austeridade sem combater o capitalismo?

(Riso) O que quer dizer, nos dias que correm, combater o capitalismo? Apenas grandes palavras e grandes slogans? Se hoje o combate ao capitalismo passa pelo combate às oligarquias, então é o que faz o Syriza. Mas combatemos hoje e não amanhã, as políticas capitalistas, as oligarquias. Os êxitos são maiores, no combate às injustiças sociais, se fizermos pequenas alterações agora, para conseguirmos maiores alterações nessa direcção. Estar na Zona Euro não traz nada de positivo, mas esperamos que as coisas se modifiquem, o que só será possível com a acção dos povos, com o seu voto em eleições livres.

O Syriza não é um partido anti-União Europeia, mas fez um acordo de governação com um partido anti-europeísta. Porquê?

O Syriza não é apenas um partido anti-europeísta. O Syriza é um partido totalmente europeu que acredita estar na União Europeia não é a melhor solução, mas a solução. É por isso que acreditamos que a resolução dos problemas do povo grego reside na Zona Euro. Quanto ao ANEL [Partido dos Gregos Independentes], com o qual firmámos um acordo de governo, não creio que seja um partido anti-europeísta. É natural que entre os dois partidos haja diferentes programas políticos, mas isso não significa que o ANEL seja um partido anti-europeísta, como alguns querem fazer crer. Neste momento, o Syriza é atacado sobretudo pelas suas propostas a nível económico, porém, tal deve-se, essencialmente, ao facto de os seus adversários políticos não terem nada para oferecer em termos de alternativa económica. Os nossos adversários internos, em termos de política económica, não têm nada para oferecer, face às necessidades do povo grego.

O Syriza recebeu um enorme capital de esperança, nas eleições de Janeiro. E não só do povo grego. Outros povos da Europa, incluindo os portugueses, olham com expectativa para a Grécia. O que espera o Syriza - e o actual governo grego - dos outros povos europeus?

Solidariedade e apoio político são o mais importante para travar as políticas de austeridade. Não nos entendemos como "professores" dos outros povos europeus. O que desejamos é que os partidos anti-austeridade da União Europeia consigam progredir. Que todos os partidos que combatem as políticas de austeridade, em todos os países da União Europeia, consigam progredir, consigam bons resultados nas próximas eleições. Gostava de acrescentar que, e a propósito da questão que me coloca, não foi bom para o Syriza, para o actual governo grego, que as elites políticas portuguesas estivessem tão próximas das elites económicas europeias. Não foi bom para o povo grego que de Portugal, um país vítima das políticas de austeridade, não tivesse chegado apoio às nossas negociações com os parceiros europeus.

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