Cinema: "Uma turma difícil" de Marie Castille Mention-Schaar

Nº 1732 - Verão 2015
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

Passaram 70 anos sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, acontecimento terrível de destruição e morte que marcou a humanidade para todo o sempre.

De então para cá, por diversas vezes, este tema tem sido recorrente no cinema, ora focando os violentos combates, as batalhas mais importantes durante o conflito e o comportamento e decisões dos combatentes, ora centrando a acção na retaguarda ou revelando como foi duro e difícil recomeçar, construir um presente, após o termo das hostilidades.

Evocarei aqui três filmes que têm como elo de ligação a Segunda Guerra Mundial.

UMA TURMA DIFÍCIL (Les Héritiers) é o terceiro filme da realizadora e produtora francesa Marie Castille Mention-Schaar e baseia-se num caso verídico passado no Liceu Léon Blum em Créteil.

Uma professora de História, Anne Gueguen, chega a uma turma do 10º ano do Liceu Léon Blum constituída por alunos de diferentes etnias, permanentemente desinteressados, indisciplinados e de pouco rendimento escolar, o que provoca o desinteresse do próprio director do liceu.

Mas esta professora é diferente e vai veiculando conhecimentos com mapas de referência, palavras escritas no quadro, pronta a explicar dúvidas. Quando, pela primeira vez, pronuncia a palavra "Shoah" surgem as mais diversas piadas sobre o termo. A professora, afável, determinada, resolve desafiar a turma a participar num concurso de escolas sobre o Holocausto. Surgem protestos, recusa por nada terem a ver com o assunto, além da sua incapacidade para entrar em tal tema. É então que a mestra afirma: "É espantoso que eu tenha mais confiança nas vossas capacidades do que vós próprios".

Pela mão desta autêntica pedagoga aqueles alunos vão ter a oportunidade de se confrontarem às suas reacções perante as imagens do genocídio dos nazis. Os alunos vão aprender em que consiste um trabalho de grupo à volta das imagens, livros, mapas e debates e a visita a Drancy, é uma descoberta nos arredores de Paris, onde foi erguido um Memorial do Holocausto para que se saiba que ali existiu um gueto, um centro de deportação, que enviou cerca de 70 mil pessoas para campos de concentração da Alemanha nazi.

A humanidade destes jovens alunos, oculta na rebeldia do quotidiano e no sarcasmo, vai ressurgir com a nova aprendizagem e despertar novos valores a seguir, além de restituir-lhes a confiança em si próprios. Note-se que foi esta turma que com o seu trabalho ganhou o concurso das escolas.

É ainda de relevar que o argumento do filme foi escrito por Ahmed Dramé, que conta a sua própria história em que é também actor, pois é um dos elementos da turma. Não actores os alunos agiram com naturalidade.

Ser professor é uma tarefa difícil, que exige grande preparação, conhecimentos, aplicação de pedagogia adequada, grande abertura de espírito, mas também vocação genuína e confiança na possibilidade do ser humano se transformar para melhor.

É impossível não admirar esta professora (que existe realmente), pequena, aparentemente frágil, mas com uma força interior enorme, que sabe trabalhar com os seus alunos e incutir-lhes reais valores.

À realizadora Marie Castille Sehaar cabe o mérito de ter sabido lidar com adolescentes sem qualquer experiência de cinema, aproveitando as suas improvisações e a frescura da sua espontaneidade, mas sempre fiel ao argumento.

Este filme inspirado é uma lição de história e humanidade. A não perder.

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