Nota de Leitura: "A mesma causa - Conferências e outras Afluências" de António Arnaut

Nº 1732 - Verão 2015
Publicado em Cultura por: L B (autor)

António Arnaut: Insubmissões

Sob o polissémico título "A mesma causa - Conferências e outras Afluências" publicou António Arnaut em Abril, pela Coimbra Editora, uma recolha de textos de intervenção cívico-cultural em 2014.

Com a ironia corrosiva com que zurzia a rafeirice da realidade nacional-salazarista, opinava o saudoso seareiro Augusto da Costa Dias que "na actual conjuntura convém ser circunspecto para evitar contumácias". António Arnaut nunca foi desses. Jamais se acomodou ao papel de circunspecto espectador da conjuntura. Assim foi nos tempos de antes do 25 de Abril, incluída a guerra colonial em que, contra vontade, fez em Angola a sua parte, sem prescindir de uma posição crítica no terreno, e assim tem continuado a ser até ao presente.

Pertinaz objector do acordo ortográfico do dr. Malaca, António Arnaut mantém-se fiel à língua que apendeu na primária da Cumieira, Penela, e na qual tem vindo a produzir, desde a juventude, as mais diversas manifestações do seu espírito inquieto, que se alargam à poesia e à ficção. Os textos reunidos no presente volume reflectem a sua preocupação com os temas de carácter cívico-social, aliás significativamente apontados na polícroma capa: a República, a Justiça, a Maçonaria.

A actual conjuntura, do País e do Mundo, com o horror de desigualdade, injustiça e pobreza gerado pela cegueira dos mercados, é alvo da crítica do autor, nos termos expressivos que se transcrevem: "A experiência dos últimos anos, com o seu cortejo de escândalos financeiros e de empobrecimento geral, tornou evidente que o liberalismo económico não cabe no Estado Social. A liberdade do capital e dos mercados conflitua com os direitos e a dignidade dos cidadãos. Só um Estado democrático forte, detentor de meios de produção estratégicos e regulador eficaz do mercado pode evitar a captura pelo poder económico e garantir os direitos sociais e a cidadania plena. Não é o Estado Social que é insustentável. A rapina deste ultracapitalismo é que o tornou deficitário. As feras vivem do sangue das suas vítimas.

Saúde-se então a persistência e vote-se pela fidelidade à linha de vida por que optou António Arnaut, na coerência e na rebeldia do seu combate literário e cívico.

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