70 anos da Vitória sobre o nazi-fascismo

Nº 1732 - Verão 2015
Publicado em Internacional por: Levy Baptista (autor)

A comemoração do 70.º aniversário da Vitória sobre o nazi-fascismo na 2.ª Guerra Mundial, na Europa (Setembro de 1939 a Maio de 1945), foi condicionada pelo estado actual das relações internacionais, afectadas no espaço europeu pela questão da Ucrânia e pela crise financeira que, via Grécia, pesa sobre a União Europeia.

Reflexo dessa actualidade foi o modo diverso como se encararam as comemorações, quer da parte russa quer da parte "ocidental" (UE e EUA), diferença fruto das divergências que, passados estes 70 anos, existem quanto à verdade histórica da realidade da guerra e quanto à presente situação.

Velhas questões, como a responsabilidade do nazi-fascismo na maior tragédia da história da Humanidade e a dimensão do sofrimento dos povos e países, especialmente a URSS, que lhe suportaram as consequências, são recorrentes em semelhantes comemorações, com frequência mostrando que nem sempre conta, para certos observadores e até historiadores, o respeito devido à memória dos dezenas de milhões de vítimas dessa insana manifestação de violência.

Agora, a pretexto da crise ucraniana, a União Europeia, no seguimento das sanções políticas e económicas que vem aplicando à Rússia, e alinhada com os EUA, decidiu não se fazer representar na comemoração de Moscovo, ao mesmo tempo que a NATO reforça bases militares, com tropas e armamento pesado, nas fronteiras europeias da Federação Russa e aumenta consideravelmente as manobras militares na Europa Oriental. Jogos de guerra perigosos, dado que não é de esperar que a Rússia assista passivamente a movimentações que colocam em sério risco a sua segurança e paz nessa região tão sensível do globo.

Na Rússia, tal como noutros países que constituíam então a ex-URSS, continua bem viva a dimensão do genocídio que para os seus povos significou a ofensiva alemã. Como sublinhou, num discurso de Junho de 1963, o Presidente Kennedy, na história dos conflitos humanos não há exemplo que se pareça com o que sofreram os russos durante a 2.ª Guerra Mundial, que lhes causou vinte milhões de mortos, incontáveis milhões de casas e propriedades incendiadas ou devastadas e a desertificação de um terço do território europeu da União Soviética e quase dois terços das suas zonas industriais.

A 2.ª Guerra Mundial foi assumida na URSS como guerra do Povo (a Grande Guerra Pátria), com apelo ao secular fundo de patriotismo e nacionalismo russo até às estruturas religiosas, como é o caso da Igreja Ortodoxa. Só a resistência de todo esse povo em armas, bem como a criação de frentes antifascistas nos diversos países sob ocupação, possibilitou a derrota da ideologia e das práticas nazis, com o consequente projecto racista em que assentavam. A coligação anti-hitleriana (URSS, EUA, Inglaterra) só foi possível com as derrotas da Wermacht em 1941/43 na URSS (Moscovo, Leninegrado, Kursk, Stalinegrado...) que forçaram a abertura da segunda frente na Europa, com o desembarque dos Aliados na Normandia, em Junho de 1944.

Juntamente com o que ocorreu nos demais países europeus submetidos ao jugo nazi-fascista, tal como nos países asiáticos sob ocupação nipónica, a dimensão da tragédia e a derrota dessa força vieram a condicionar não só o futuro imediato como a reformulação do mundo novo que, literalmente, emergiu das cinzas da guerra em 1945: conquistas dos trabalhadores, nos planos económico, social e político, movimento de libertação nacional de povos africanos e asiáticos sujeitos ao colonialismo, alargamento do campo dos países socialistas, criação da Organização das Nações Unidas, com a instauração da nova ordem mundial regida pelos valores da democracia e da paz. Valores que, volvidos estes 70 anos e apesar de todos os avanços alcançados, não podem ser dados como definitivamente adquiridos, pelo que há que defendê-los, para que não se repita uma tragédia que, na actualidade, teria uma dimensão incomparavelmente superior àquela que acabou em Berlim, em Maio de 1945.

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