Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal) O Nordeste transmontano como ideia

Nº 1735 - Primavera 2016
Publicado em Memória por: Aderito Branco (autor)

Transportemo-nos para 1877 e imaginemos uma figurinha de menino com 12 anos de idade, carregando a sacola recheada com os livros, a lousa, o naco de pão, de presunto e de queijo necessários ao sustento, cantarolando e calcorreando, sozinho, os caminhos que de Baçal o levavam às aldeias de Rabal e Sacoias, com destino à escola que não existia na sua terra natal.

Tendo em conta o homem em que, o menino, se vai transformar, fácil é compreendermos, hoje, como o obrigatório percorrer de tais caminhos terão ajudado a moldar o seu carácter e a sua personalidade. Difícil será pensarmos que algum dos seus conterrâneos, observando-o naquelas andanças, pudesse imaginar que, com o rodar do tempo, ele se transformaria numa das figuras marcantes da cultura portuguesa do sec.XX.

Nascer numa aldeia de um dos concelhos -Bragança- mais empobrecidos do país, determinava, à partida, um destino amarrado à limitada mundividência que o cimo dos montes envolventes impunham e as decisões dos donos do Poder endureciam em vez de amaciarem, como era obrigação sua.

Vidas de horizontes cerrados, pois. Mesmo para os possidentes de alguns poucos hectares de terras. Trair o destino? As excepções não alteram as estatísticas.

Porém, considerando as circunstâncias e a relatividade das coisas, o Francisco de Baçal não foi exactamente um menino como os outros meninos da sua aldeia.

Os seus progenitores constituíam um casal abastado em terras e gados. Pormenor que não terá contribuído pouco para a decisão de obrigarem um dos seus rebentos ao "sacrifício" de se deslocar a uma escola distante. Mais tarde, se tudo corresse bem, a sorte ajudasse e o menino mostrasse ser esperto, o Seminário de Bragança até podia ser a porta para um rasgão nas garras do destino. E foi!

Será justamente no seminário que começaram a revelar-se alguns dos traços fundamentais do carácter e personalidade do futuro Abade de Baçal. Curiosamente, aqui é "baptizado" com a alcunha de Robespierre, que ele não mais desdenhará porque, a nosso ver, lhe quadrava bem com o seu apego ao estudo e ao conhecimento, à sua empatia com um certo modo de ler a vida e ao assumir de uma rebeldia que ao longo da sua vida sempre se foi manifestando, firme e sem violência, quando a espuma dos dias o exigiu.

A vida a cumprir-se

Padre desde 1889, inicia a sua vida sacerdotal em Mairos, aldeia do concelho de Chaves, ao tempo ainda parte integrante da Diocese de Bragança e Miranda. Por certo, terá cumprido com brilho as suas tarefas sacerdotais, mas o que, desde logo, se fez notar foi a sua insistente procura de objectos de interesse arqueológico e a preocupação com a recolha de informações sobre lendas, costumes e velharias.

Que justificação para o revelar de tais inclinações? Vontade já conscientemente assumida e transformada em primeiro e fundamental projecto de vida?

Quando jovenzinho terá gasto muitas e boas horas à conversa e ouvindo a sua tia Luzia Alves contar-lhe histórias fantásticas de santos, príncipes, fidalgos, mouras encantadas, ladrões famosos. Que efeitos terão produzido essas conversas no caminhar do Francisco já homem? Nunca será possível saber-se.

O que é facto, é que o início da sua vida de padre coincide com o início da sua actividade de investigador e escriba. Duas vidas distintas, que decorreram em paralelo até ao fim dos seus dias, sendo certo que a sua condição de padre, interventivo, digno, exemplar não obteve a relevância e o reconhecimento que foram conferidos ao seu labor de investigador e escriva.

No início de 1896 é transferido para a sua terra natal, onde residirá até à sua morte. É a partir de então que Francisco Manuel Alves dá corpo e sentido à obra imensa que soube construir e desenvolve uma teia de relações que o tornam uma figura pública de dimensão nacional e transformam Baçal num local de peregrinação habitual para muita da intelectualidade portuguesa de então.

A comunidade científica habituou-se a conhecê-lo, reconhecê-lo e até a visitá-lo. Jornais, revistas e rádios seguiram com atenção o seu labor e conferiram-lhe um destaque incomum.

Gente de saber como os professores José Leite de Vasconcelos, Jorge Dias, Abel Salazar, Egas Moniz e tantos outros, não desdenharam deslocarem-se a Baçal e testemunharem a surpresa e admiração que lhes provocou a pessoa rude e humilde do Abade e também a sua personalidade fortíssima e a dimensão do seu caracter nobre, que o impeliam a tratar todos por tu, ou quando muito por VÓS, se no interlocutor reconhecia qualidade e importância justificada.

Tendo em conta o seu efectivo mérito, nada disto seria susceptível de nos surpreender se o Abade vivesse em Lisboa, Coimbra ou no Porto e frequentasse as tertúlias e grupos de pressão que, a partir desses locais, tudo conduziam e conduzem. Mas não! Ele construiu a sua obra a partir de uma ignota aldeia que os mapas não referiam, situada algures a norte, no concelho da inóspita e ignorada Bragança.

Não cabe fazer aqui uma descrição, mesmo que breve, da realidade vivencial oferecida por Baçal aos seus naturais entre 1865 e 1947, anos do nascimento e morte de Francisco Manuel Alves.

O facto é que, na realidade, as condições de vida proporcionadas por Baçal, desde a implantação do liberalismo até aos anos setenta do sec.XX, estariam mais próximas dos tempos medievais do que dos contemporâneos.

Se formos capazes de percepcionar que, por paradoxal que isso nos pareça, ao tempo, as discrepâncias entre interior e litoral, em termos civilizacionais, eram bem mais acentuadas e chocantes do que são hoje, talvez possamos entender as contradições que se foram estabelecendo entre a admiração e reconhecimento por parte da elite intelectual do país e a dúvida de muitos dos seus conterrâneos.

Para os primeiros, só alguém como o Abade, dotado de qualidades de trabalho e inteligência excepcionais poderia, naquelas modestíssimas condições, produzir uma obra imensa e de excelente qualidade científica.

Para os segundos, ele não foi arqueólogo, nem etnólogo e menos ainda historiador.

Como poderia um qualquer Francisco, nascido no meio do nada, ir além da condição de um simples intuitivo que, sem qualquer critério e fundamento, decidiu gastar parte da sua vida em incansáveis excursões por todo o distrito de Bragança, dedicadas à procura de materiais diversos com interesse arqueológico, etnográfico, histórico e artístico.

Programa e objectivos? Como lhe teria sido possível tê-lo e delineá-los naquelas condições existenciais, agindo na suposta ignorância das lições dos grandes mestres e afirmando, convicto e cheio de si, a recusa de quaisquer tipos de escolas e doutrinas, perguntavam.

A obra do Abade não ia além de um emaranhado novelo, verdadeira expressão da sua desestruturada forma de pensar e da sua ideia de independência. Escreveram alguns, muitos.

Vejamos. O Abade de Baçal afirmou-se e é reconhecido como historiador, arqueólogo e etnógrafo.

Do conjunto da sua obra sobressaem as MEMÓRIAS ARQUEOLÒGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA, derramadas por onze volumes sobre onde registou a evolução da história, economia, arte, usos, costumes, crenças, literatura que resultaram do viver dos que, ao longo dos tempos, foram os habitantes e naturais do nordeste transmontano.

Para quem se der ao trabalho de as ler e estudar, o primeiro contacto é difícil, frustrante, inibidor. A sensação de um labiríntico desarrumo manifesta-se evidente e consistente.

Todavia, à medida que com elas nos vamos familiarizando, lhe vamos conhecendo veredas e atalhos e perscrutando sentidos e intenções, a sensação de estarmos a lidar com uma obra absolutamente notável impõe-se.

Então as reservas dão lugar ao encantamento, não apenas pelo muito que nos dão a conhecer sobre os nordestinos, mas sobretudo pela forma como montam, ordenam e afirmam a sua natureza, a sua humanidade mansa e criativa, o seu direito ao reconhecimento de uma identidade própria, diferente, mas integrante de um todo em que se reconhecem e a que não desdenham pertencer.

Como nada é como gostaríamos que fosse

Viviam-se tempos em que se pretendia e sentia como necessário afirmar definitivamente a ideia de Portugal como berço de um Povo Nação absolutamente uniforme nas suas origens, história e cultura de norte a sul do país.

A partir de meados do SEC.XIX assistiu-se à afirmação nacionalista, colonialista e imperialista de alguns Povos europeus o que exigiu dos portugueses uma resposta clara. A necessidade de consolidar em Portugal uma certa ideia de Regime, de Estado, de exercício dos Poderes visando um centralismo total, absoluto, impôs uma resposta idêntica.

Neste ambiente, para algumas das grandes figuras da vida cultural portuguesa, da área da etnografia - José leite de Vasconcelos, Teófilo Braga, Adolfo Coelho, Jorge Dias-, impunha-se como necessária e conveniente a procura e demonstração da existência de uma unidade e uniformidade caracterizantes do SER PORTUGUÊS, na convicção de que procurando-as, elas surgiriam e se afirmariam como inquestionáveis realidades.

Todavia, a procura das razões profundas do que parecia ser o suporte e afirmação da UNIDADE NACIONAL, surgia grávida do seu contrário.

Uma outra etnografia, praticada por etnógrafos locais, descobre e afirma uma outra portugalidade, assente em diferenças profundas, origens diversas e vivências identitárias cimentadas numa cultura material e imaterial local, paroquial, concelhia, regional.

Com a sua prática nasce um regionalismo de exclusivo caracter cultural, que não reivindicou Poderes nem prerrogativas, que se expande por todo o país e que, a par do Abade, integrou os nomes de Martins Sarmento e Alberto Sampaio, no Minho; Simões de Castro, Santos Rocha e Virgílio Correia, nas Beiras; Gabriel Pereira, no Alentejo; Estácio da Veiga no Algarve.

A visão unitária Impôs-se e o Estado centralizado e omnipotente tornou-se incontornável mas, ainda que sem qualquer ligação orgânica, houve quem lutasse pela afirmação de uma outra realidade, a justificasse e a entendesse necessária à concretização do bem comum.

Neste contexto, de entre o grupo de "regionalistas", pela sua personalidade e objectivos fortemente distintivos, emerge a figura de Francisco Manuel Alves, para quem o Nordeste, enquanto unidade identitária - cavada num tempo longo, amalgamada numa cultura material e imaterial e numa história própria - e o DISTRITO DE BRAGANÇA, enquanto unidade administrativa, eram uma e a mesma coisa.

Esta seria a justificação para a expressão DISTRITO DE BRAGANÇA, apesar da sua criação recente (1836), ter sido rapidamente assimilada e sentida pela comunidade que o constituía como sua marca identitária e daí o Abade não ter hesitado em titular a sua obra principal de Memórias Arqueológico - Históricas do Distrito de Bragança.

O Abade não podia ignorar e não ignorava que no plano estritamente político, a criação dos distritos representou para o liberalismo - monárquico, republicano, do estado-novo - um instrumento fundamental do desenho, afirmação e consolidação da construção de um ESTADO absolutamente centralizado e oposto à afirmação expressiva de "perigosas" idiossincrasias regionais, de fundo paroquial e, ou, concelhio.

Cremos, porém, que a sua obra visou objectivos que estavam já muito para além dessa luta. O Abade já não discute o passado naqueles termos. Simplesmente questiona a Nova Ordem instaurada, propondo-lhe subtilmente que não ignore as diferenças, antes respeite e aproveite o seu potencial, por forma a transformá-lo numa força positiva para o futuro de um país que se queria regenerado e progressivo.

O Distrito de Bragança poderia ser, a este título, um exemplo bem expressivo.

A justificação para o Abade era clara, precisa, evidente:

  1. Bragança era desde tempos remotos -anteriores a 1143- cabeça dos povos constitutivos da comunidade nordestina e esteve associada a outros centros de poder político e religioso - diocese de Astorga- que não os que estiveram na origem de Portugal e, apesar disso, tinha sabido integrar-se no todo português de forma coerente e consistente.

  2. Participou activamente de todos os momentos fundamentais em que a nação correu riscos - 1383/85, 164O, Invasões Francesas, 182O- e se afirmou, fazendo-o com exuberância nuns casos, modestamente noutros.

  3. Tinha potencialidades económicas suficientes para aspirar, de forma sustentada, a um desenvolvimento continuado e progressivo, na agricultura, comércio, industria e serviços.

  4. Tinha, ao longo dos séculos, conseguido manter algumas especificidades culturais, particularmente traduzidas nos seus usos, costumes e particularismos linguísticos, susceptíveis de lhe conferir identidade própria sem, por isso, perder o sentido de pertença a um todo no qual se reconhecia e reconhece.

É um facto que o imbricamento das actividades produtivas, composição social e atitudes culturais, tendo em conta o seu peso relativo, determinam o nível de identificação dos habitantes com a sua região, bem como do respectivo sentimento de pertença. Mas não a compreensão e comprometimento com a formulação e concretização de ideais comuns.

Ora sem a formulação, compreensão e comprometimento com ideais comuns, nenhuma região conseguirá impor fluxos e relações de igualdade, muito menos de dominação, no quadro nacional e civilizacional em que se integre.

Isto, mesmo que, reconhecida e independentemente da sua dimensão, exista como espaço, como conjunto social, com produção económica, cultura e história específicas.

Poderemos então concluir que ao nordestino bragançano, no passado próximo, bem como no presente, tolhe-o o facto de lhe faltar um sentimento de pertença claro e sobretudo objectivos suficientemente impositivos e evidentes, que o levem a não aceitar, nem a acomodar-se, aos desígnios que outros lhe traçam.

Bem que o nosso Francisco Manuel Alves nos quis demonstrar - e para isso elencou as razões enumeradas - porque temos direito a um quinhão bem maior de auto-estima e de respeito por parte de outros.

Como escreveu José Monteiro "O grande magistério do Abade, a sua glória e a sua lição é ter sido capaz de aproveitar o meio ambiente em que nasceu para, pela cultura e numa perspectiva de portugalidade e universalidade, dizer que a região existe e que o seu nível de reconhecimento pode ser substancialmente melhorado."

É facto que o Abade de Baçal e a sua obra encerram uma lição para os que fazem da HISTÓRIA o seu instrumento de trabalho, ao ensinar-nos que a história deste país, que é o nosso, pode e precisa de ser contada de outras maneiras, podendo então tornar-se, pelos seus ensinamentos, bem mais útil para todos.

Agustina Bessa Luís estaria em sintonia com o Abade quando escreveu: "O sítio é Portugal, apelido de pequeno país. O que faz Portugal pequeno são as almas pequenas. Não se diz que a Suíça é pequena ou a Holanda ou a Bélgica ou a Dinamarca. Há sempre um ponto reverencial que as salva, seja o segredo bancário ou as tulipas."

Aos nordestinos talvez possa salvá-los o FRANCISCO de Baçal, se souberem interpretar a lição contida nas suas Memórias Arqueológico-históricas do Distrito de Bragança, transformando-a numa fonte permanente de inspiração, na procura, determinação e reivindicação de um futuro que valha a pena.

Em 2015 teria concluído150 anos de vida, se lhe fosse possível tê-los vivido. O congresso então realizado em sua memória, na cidade de Bragança, demonstrou como, ainda hoje, a sua obra é considerada importante nos meios académicos e continua a ser objecto de estudo interessado. Igualmente pôs em evidência a sua actualidade e modernidade e quanto o essencial do seu pensamento nos pode ser útil.

Saberemos merecê-lo?

Bibliografia

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