Cinema: "Money Monster" de Jody Foster

Nº 1736 - Verão 2016
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

Judie Foster é uma actriz de talentos confirmados, detentora de dois Oscars pelo seu desempenho nos filmes, Os Acusados e o Silêncio dos Inocentes.

Mais recentemente porém, a par do seu trabalho como atriz, tem-se revelado uma realizadora interessada em abordar problemas reais. Os seus filmes apresentam formas diferentes para tratar temáticas que lhes são comuns: o insucesso, a perda das ilusões e principalmente a solidão. A propósito desta última confessou a atriz numa entrevista que o tema da solidão sempre a acompanhou desde muito jovem, para acrescentar que a profissão de atriz é extremamente solitária, pois embora exista à sua volta uma equipa técnica, o intérprete está só face ao seu desempenho.

Money Monster conta-nos uma história a seguir à crise de 2008. Revela como os meios de comunicação são manipulados e como eles próprios manipulam as pessoas com slogans repetitivos.

Lee Gates (George Clooney), jornalista que parece ter esquecido a ética da sua profissão, é apresentador dum programa televisivo sobre transações financeiras e investimentos. Música e bailarinas acompanham a sua actuação no plateau, onde também dança, ao mesmo tempo que vai sugerindo ao público como deve aplicar o seu dinheiro, sob o lema “sem risco não há recompensa”

A exibição espalhafatosa em palco deve diminuir a capacidade de análise do público para entender correctamente o que pretendem vender-lhe.

Neste cenário, onde decorre o espectáculo, irrompe subitamente Kyle Budwell (Jack O’Connell) com uma arma na mão, que obriga Lee Gates a enfiar um colete carregado de explosivos de que ele segura o comando.

Jovem de classe modesta, trabalhador muito mal pago e com uma namorada grávida, Kyle está ali para saber o que aconteceu aos 60 mil dólares que herdara da mãe e investira numas acções, aconselhado por J.Gates, o guru das finanças de Wall Street.

O filme é de cortar a respiração. Frente a frente Lee e Kyle vão dialogando, com cautela da parte do jornalista, que recebe as dicas da sua assistente Patty Fenn (Julia Roberts) que na cabine de som segue serenamente a cena.

Kyle só queria melhorar a sua situação e a da futura família, mas afinal correu o risco e ficou sem nada.

O jovem, trabalhador humilde, expõe o seu caso perante milhões de telespectadores e exige respostas.

No decorrer da narrativa, primeiro atribui-se a má negociação à falha dum algoritmo. De Nova Iorque passa-se para numerosos países onde actuam os grandes grupos financeiros, até se descobrir que a falha teve a intervenção de mão humana, lá muito longe, na África do Sul.

Perante o desvendar das esquivas e sombras, as cumplicidades da alta finança, Lee Gates vai mudando de opinião e por fim alia-se a Kyle para juntos enfrentarem as empresas Walt Comby, contra o poder do dinheiro. A novidade introduzida por Jody Foster no seu filme é não acusar um culpado particular um ou mais indivíduos que tiveram comportamentos desonestos por serem corruptos.

A realizadora denuncia muito claramente quais são os mecanismos que produzem as crises e como funciona o sistema financeiro capitalista e globalizado.

George Clooney e Jack O’Connell protagonizam de forma brilhante os respectivos personagens revelando a tensão, o medo e a determinação do “agressor”. Mas não devemos esquecer o papel fundamental de Julia Roberts que, como Patty Fenn, no obscuro da sua cabine segue atentamente o que se passa no plateau e vai sugerindo a L. Gates a melhor forma de dialogar com Kyle, a fim de não despertar a fúria do jovem, que pode agir fazendo tudo ir pelos ares.

Mulher inteligente, tranquila, atenta, é ela que com diplomacia melhor lida com a situação verdadeiramente dramática.

Sobre a sua realização, Judy Forster comenta que Money Monster “é um filme que exige do espectador «a disponibilidade necessária para acompanhar um desenvolvimento narrativo inteligente, sofisticado e rápido»” sem deixar de se destinar a um grande público.

Money Monster foi apresentado no festival de cinema de Cannes 2016, em selecção oficial fora de competição e produziu um grande impacto.

Ver todos os textos de DULCE REBELO