Cinema: "Aliados" de Robert Zemeckis

Nº 1737 - Out/Inv 2016
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

A Segunda Grande Guerra Mundial tem sido inspiradora de numerosos filmes.

Lembremos “Casablanca” (1942), da autoria de Michael Curtiz, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, inesquecível para todo o sempre, ou ainda “O Último Metro” de François Truffaut com Catherine Deneuve e Gérard Depardieu, um par apaixonado no espaço de um teatro de Paris, que surge como um lugar de resistência ao invasor alemão.

No entanto este filme de Zemickis faz-nos lembrar o magnífico “Casablanca” pelos lugares, pela intensidade da paixão, pela situação de perigo.

Filmando ao estilo clássico de Hollywood, o cineasta evoca a tradição do melodrama de guerra na esteira do emblemático filme de Curtiz.

Trata-se da história de um par amoroso vivendo os dramas da época.

Max Vatan (Brad Pitt) é um oficial canadiano a quem é atribuída a missão de assassinar o embaixador alemão em Casablanca. Terá a colaboração de Marianne Beauséjour (Marion Cotillard) elemento da Resistência francesa.

Após o cumprimento da missão o par aproxima-se com confidências, sonhos futuros, alerta dos perigos e apaixonam-se profundamente.

A guerra continua, mas eles vão viver para Londres e têm uma filha.

A felicidade deles é abalada porém quando Max é informado pelos serviços britânicos de que há a suspeita de Marianne ser espia alemã. A aflição de Max é imensa e ele tudo fará para provar a inocência da amada.

Apesar da confissão de Marianne, seguro do seu amor ele procurará uma fuga para poderem ser felizes. Mas já é tarde demais.

Max, amargurado, após a morte da mulher que tanto ama guardará sempre a sua lembrança na companhia da filha e esta terá como recordação a carta que a mãe lhe escrevera antes de morrer.

Os actores são magníficos, vivendo a intensidade da paixão que é truncada abruptamente. Em tempos de guerra, num clima de combate, de perigos, ameaças, de jogos de espionagem, e resistência ao inimigo, é difícil sobreviver um grande amor.

É curioso verificar como dois cineastas tão diferentes (aliás Zemickis é considerado um especialista no uso dos efeitos especiais) se aproximam na escolha do estilo clássico para contarem as suas histórias.

É a expressão de um desejo de voltar a pôr em relevo o mundo das emoções vividas pelo ser humano num mundo conturbado, em que a responsabilidade, os sentimentos, os momentos de angústia coincidem com a desumanidade das guerras.

Zemickis proporciona-nos imagens magníficas, plenas de significado.

Na abertura do filme vemos desenhar-se numa paisagem de areias infindas a descida muito lenta de Max de paraquedas que pousa nas dunas criando um momento de grande beleza.

Num cenário contrastante, num dia nevoento e chuvoso decide-se, junto a um avião, o destino de Marianne e a dor de Max é tão sombria e tenebrosa como o céu de chumbo.

Ao contrário de tantos filmes, onde surgem máquinas voadoras ruidosas e monstros que têm por objectivo destruir cidades e habitantes, este é como um chamamento à paisagem humana, aos seus dramas e alegrias, às suas acções e opções, para melhor nos compreendermos uns aos outros.

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