Cinema: "Milagre no Rio Hudson" (“Sully”) de Clint Eastwood

Nº 1737 - Out/Inv 2016
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

Clint Eastwood, também grande actor, é um notável realizador que usa um estilo muito especial. A partir da altura em que criou a sua própria produtora na década de 1960, a Malpaso, adquiriu a independência necessária para realizar um trabalho de acordo com os seus desejos e objectivos.

Deliberadamente nos seus filmes não há o recurso a tecnologias aparatosas, nem efeitos especiais.

Prefere observar a realidade, o mundo que o rodeia e não hesita em denunciar o embuste a falsidade, a violência e a criminalidade que existem numa sociedade complexa, onde a justiça nem sempre funciona.

Defende a dignidade humana e condena os falsos ídolos, pondo em causa o seu comportamento.

A este propósito lembremos os seus filmes Grand Torino” (2008) ou “Sniper Americano” (2015). Se neste último, baseado numa personagem real, levou à reflexão sobre os valores humanos e como é considerada a “heroicidade” num mundo violento, neste seu filme “O Milagre do Rio Hudson” trata-se exactamente do oposto.

Baseando-se num acontecimento verídico, ocorrido em 2009, relata a odisseia vivida pelo piloto Sullenberger e o copiloto Jeffrey Skiles no voo 1549 da US Airways que partiu do aeroporto La Guarida (norte de Nova Iorque). O avião após o embate com um bando de pássaros perdeu os dois motores.

Nesta situação dramática só a perícia, a decisão rápida, o sentido de grande responsabilidade pelos passageiros a bordo tornaram possível poupar as vidas de 155 pessoas.

Na película, Tom Hanks é o piloto Sullenberger e o seu companheiro é interpretado por Aaron Eckhart.

As emoções, a angústia vivida durante o voo incontrolável, o medo de o aparelho se despenhar numa zona habitacional espelham-se no rosto de Tom Hanks, um actor que já nos tem dado provas do seu talento em várias interpretações. Na descida vertiginosa, o piloto tem de ignorar as orientações emitidas pela torre de comando do aeroporto, porque já não são possíveis de seguir e tomando uma decisão drástica consegue amarar no rio Hudson com dois escorregas insuflados nas asas do avião, salvando a vida de todos. Rapidamente várias embarcações partem do porto para auxiliar os passageiros.

Se os aplausos e os agradecimentos das 155 pessoas são imediatos, o mesmo não acontece com os quadros superiores.

Sullenberger tem de responder ao inquérito de uma comissão especializada que põe em causa a decisão tomada e procura provar com simulações tecnológicas do voo que, em qualquer circunstância, seria possível salvar o avião, aterrando em solo firme.

Desabafando com o seu companheiro o piloto expressa o maior sofrimento e angústia, o receio de ver a sua carreira arruinada. Afinal o que fez de errado?!

Perante as dúvidas e contestações, o visado serenamente responde que as simulações tecnológicas não tinham em conta o factor humano.

A sua resposta é corroborada por um grupo de especialistas que, tendo estudado todas as possibilidades em transe tão difícil, concluem que Sullenberger fora muito corajoso e escolhera a única opção viável.

Clint Eastwood mostra-nos a sua admiração por este verdadeiro herói.

Após um grande feito não se vislumbra no rosto das personagens qualquer sinal de vaidade, apenas uma enorme serenidade por terem cumprido o seu dever.

O herói autêntico é aquele que pensa em primeiro lugar nos seus companheiros, nos seus semelhantes e solidariamente tudo fará para salvaguardar as suas vidas em momentos difíceis.

A gratidão dos passageiros salvos nunca esmoreceu. Todos os anos o piloto recebe cartões de Natal, felicitações pelo seu feito, convites para encontros e datas festivas.

Sully (como carinhosamente passaram chamar-lhe os seus companheiros), responde a todas as solicitações sempre que possível. Na verdade os verdadeiros heróis nunca serão esquecidos.

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