Novo mundo ou mundo novo?

Nº 1737 - Out/Inv 2016
Publicado em Editorial por: Revista Seara Nova (autor)

"A fragorosa chegada de Donald Trump, e tudo o que ele representa, à presidência dos EUA, em 20 de Janeiro de 2017, vem provocando, um pouco por todo o Mundo, um sentimento de incerteza e ansiedade"

"Das indefinições e dos tiros no escuro da parte de toda a gente que, por todo o lado, opina e comenta, ressalta um tom de preocupação"

"Indiscutível parece ser, na verdade, que atingimos um ponto de viragem da história da Humanidade, e que a mudança política nos EUA poderá ter sido um ponto de aceleração dessa viragem"

 

"Besta viragem, o poder norte-americano não irá conhecer expansão, mas limitação. As anunciadas alterações das políticas, interna e externa, da nova Administração norte-americana, podem esbarrar com a emergência de outros poderes"

A fragorosa chegada de Donald Trump, e tudo o que ele representa, à presidência dos EUA, em 20 de Janeiro de 2017, vem provocando, um pouco por todo o Mundo, um sentimento de incerteza e ansiedade, acompanhado por uma curiosidade atenta, a ver “no que é que isto vai dar”.

Das indefinições e dos tiros no escuro da parte de toda a gente que, por todo o lado, opina e comenta, ressalta um tom de preocupação por uma situação que, perante manifestações nos mais diversos pontos do Globo, parece desenhar, no futuro imediato, um mundo do avesso.

Indiscutível parece ser, na verdade, que atingimos um ponto de viragem da história da Humanidade, e que a mudança política nos EUA poderá ter sido um ponto de aceleração dessa viragem. A globalização e a revolução tecnológica definem e impõem um novo paradigma das relações entre os países e os povos. Num mundo que encolheu, em que as distâncias se esfumam, em que a tecnologia coloca ao serviço do ser humano meios para, mais rápida e mais facilmente, produzir riqueza, parece estarmos afogados numa civilização do desperdício dessas vantagens, em vez de as aproveitarmos racionalmente, mediante uma mais eficaz e mais justa repartição da riqueza assim criada.

Do desaparecimento do mundo bipolar, consequente à implosão da URSS, resultou uma concentração de poder, político, económico e militar (NATO) nos EUA - e os sinais da actual situação apontam para que possa estar a chegar, se não o fim, uma acentuada alteração da unipolaridade desse mundo. Ou seja: nesta viragem, o poder norte-americano não irá conhecer expansão, mas limitação. As anunciadas alterações das políticas, interna e externa, da nova Administração norte-americana, centradas no protecionismo e no isolacionismo, podem esbarrar com a emergência de outros poderes, já não só a Rússia, mas uma China que quer afirmar-se muito positivamente nesta nova fase da globalização das relações entre os povos do mundo.

Sinal dessa mudança será a intervenção do Presidente chinês, Xi Jinping, no Forum Económico Mundial de Davos (Suíça, Janeiro de 2017), com um histórico discurso estratégico, de defesa das portas abertas, para um diálogo directo e contra o proteccionismo, visando o avanço determinado da globalização económica, com todas as consequências daí decorrentes. Assim, talvez estejamos a viver dias de um ajustamento do centro de gravidade do planeta político, com os EUA a deixarem de ter o domínio universal de que têm gozado desde a última década do século XX, perante a emergência de novas realidades que lhes sirvam de contraponto.


É desesperante a situação em que Portugal se encontra.

São preocupantes os aspectos e indicadores financeiros, económicos, sociais, mas é limitativo confinar a tais planos a gravidade da situação actual do nosso País. No entanto são tais indicadores que em primeira análise dão a exacta medida das nefastas políticas que têm sido adoptadas e da fraca qualidade dos governantes que têm estado à frente dos destinos deste País, bem como das distorções do sistema económico em que estamos inseridos.

Dizemos que é limitativo, porque a degradação da sociedade portuguesa – e igualmente da europeia – é grave noutros planos, como o político, em que a democracia está restringida a aspectos formais, sempre mais limitados; como o cívico, onde o envolvimento das populações e dos cidadãos individualmente considerados nos destinos do País é cada vez menor, porque menos estimulado ou menos apoiado (caso do movimento associativo); como o cultural, onde apesar de muitas e interessantes manifestações, estas se destinam predominantemente a elites e os estímulos junto dos mais jovens são muito reduzidos; como o ético, com os exemplos pouco edificantes dos representantes dos poderes em casos de corrupção conhecidos ou suspeitados, com o desprestígio da justiça, provavelmente consequência principal de legislação inadequada, mas cuidadosamente elaborada para discreto benefício dos poderosos; e com os valores dominantes do sucesso individual sem olhar a meios, do individualismo exacerbado, da aceitação propagandeada de uma sociedade de injustiça e desigualdade social, temperada de uma caridadezinha quanto baste.

Haverá uma saída a curto / médio prazo?

Olhemos sucintamente os planos financeiro, económico e social: uma dívida externa elevada, pública, mas principalmente privada, com a banca descapitalizada (apesar das ajudas); um aparelho produtivo a ser extensa e servilmente destruído, desde o primeiro governo de Cavaco Silva; um mercado interno em retração, provavelmente cada vez mais acentuada dado o ataque aos direitos laborais e o crescimento do desemprego; a errada opção de privilegiar as exportações, constrangidas pela estagnação europeia; as dificuldades e ausência de apoios suficientes às pequenas e médias empresas, cujo peso é determinante no tecido produtivo do país; um desemprego descontrolado; a diminuição da parte dos salários no rendimento nacional; o nível muito baixo das reformas e o crescimento das manchas de pobreza.

A culminar tudo isto, uma política cega pela vulgaridade do neoliberalismo, sob a inadequação e malvadez das receitas da troika FMI/UE/BCE, condicionada pela inexperiência dos governantes e submetida às ordens das maiores potências europeias e a um patronato que ainda vegeta em ideias do século XIX.

Mas o descontentamento vai aumentando. Seria impensável que assim não fosse: a política em curso ofende as expectativas e os direitos de trabalhadores, de jovens e de idosos, dos estudantes, das forças de segurança e das forças militares, dos pequenos e médios empresários e de todos os sectores do funcionalismo público.

O que há de novo é que a resignação vai dando lugar à contestação e ao protesto.

Aí estão a comprová-lo as manifestações, concentrações, vigílias, abaixo-assinados e petições, vaias aos governantes e ao PR nas suas deslocações, contestação crescente na blogosfera. E acima de tudo a enorme manifestação sindical de 11 de Fevereiro, que no dizer da CGTP-IN transformou o Terreiro do Paço em “Terreiro da Luta” e a coragem desta em convocar uma greve geral para 22 de Março.

Esta luta alargada pode impor que a política nacional responda às reais necessidades do nosso País, na correcção dos desequilíbrios antes assinalados, em vez de estar subordinada à troika - instrumento do grande poder financeiro.

É isto possível na União Europeia e no espaço do euro?

A integração europeia sempre foi um projeto do grande capital europeu. Mas incorporou ideais democráticos e a defesa dos valores da liberdade, instituiu o modelo social europeu, inscreveu como seus princípios a coesão económica e social e a harmonização no progresso. Outros povos europeus – gregos, espanhóis, franceses, irlandeses, ingleses, belgas – lutam contra a actual política retrógrada imposta pela UE e respectivos governos. Os portugueses não estão sós na sua luta; e hão-de estar determinados a não seguir o caminho que nos esperará se continuarmos a deixar que aqui se reproduzam as selváticas medidas impostas ao povo grego.

Por cá, na Seara Nova, vamos dando o contributo possível na defesa dos valores democráticos, na promoção da cultura, na exigência de justiça social, na denúncia da política que não olha aos interesses do povo, tudo em respeito das tradições nobres desta revista de 90 anos.

Estamos a comemorar o 90.º Aniversário em justa homenagem aos que construíram e mantiveram esta revista, sempre num plano elevado que a colocam como uma referência da nossa democracia e da história portuguesa do século XX.

Dentro das comemorações “90 Anos Seara Nova” este é o terceiro número da revista que dá destaque ao 90.º Aniversário. Já realizámos duas Conferências Seara Nova, sob os temas “O Projecto Seara Nova” e “Leituras da Crise”, que foram assinaláveis êxitos, pela qualidade das intervenções dos oradores, pelo número de presenças e pela elevação dos debates. Inauguramos no Palácio Galveias, gentilmente cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, a Exposição Itinerante que tem por título “90 Anos de Intervenção Cívica e Cultural”, onde se manterá até ao final de Abril.

Entre outras iniciativas, está em preparação a 3.ª Conferência, sobre Comunicação Social, prevista para finais de Maio e organiza-se a lista das entidades e locais por onde circulará a Exposição. Esperamos contar com a presença dos nossos assinantes e leitores.

Nestas ações temos o apoio de uma Comissão de Honra, identificada noutro local desta revista e o patrocínio institucional da Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Casa Museu Abel Salazar, Fundação Mário Soares e Fundação José Saramago.

As comemorações do 90.º aniversário da Seara Nova têm igualmente servido para divulgar a revista e é com agrado que registamos o número crescente de visitas ao sítio da internet inaugurado no âmbito destas comemorações e os quase 2.000 amigos que nos seguem no facebook.

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