Fidel Castro Uma homenagem

Nº 1737 - Out/Inv 2016
Publicado em Internacional por: Helio Bexiga (autor)

O homem que abdica de uma vida confortável em resultado da riqueza paterna ou mesmo de abundantes proventos derivados da sua atividade profissional para se dedicar à luta em prol da libertação da sua Pátria do jugo de uma ditadura ao serviço dos interesses do poderoso vizinho, já então uma potência imperialista, à luta para dar aos seus compatriotas, nomeadamente os mais sacrificados pela ditadura repressiva que sobre eles se abatia, a possibilidade de uma vida digna. Luta para a qual partiu consciente dos enormes sacrifícios e riscos, nomeadamente da própria vida. O homem que assim age é, à partida, em qualquer lugar do tempo histórico, uma personagem de dimensão universal, de incomensurável grandeza, pois dedica a sua vida à realização dos mais altos valores que o homem foi erigindo na sua caminhada histórica a que chamamos civilização, os valores da solidariedade, da fraternidade, da liberdade, da igualdade!

Fidel Castro, assim como Mandela, Luther King e outros foi um homem de extraordinária coragem, do mais elevado conceito sobre a função e a responsabilidade do indivíduo na sociedade. Do indivíduo consciente do processo histórico, do indivíduo que tomou consciência da responsabilidade acrescida que se coloca àqueles que percebendo a realidade que os cerca se não alheiam dela! Fidel Castro foi de facto uma personalidade ímpar e exemplar, até ao fim!

Como o refere Frei Beto: Com Fidel morre o último grande líder do séc XX. O único que sobreviveu à própria obra: a revolução cubana. Líder de uma nação que há mais de 50 anos resiste à pressão dos Estados Unidos. Fica faltando apenas a suspensão do bloqueio económico. O legado que ele deixa é inestimável. Uma nação de quase 12 milhões de habitantes com muitos problemas, claro, mas que têm os direitos básicos assegurados: alimentação, saúde e educação. Hoje Cuba exporta médicos e professores para mais de 100 países, inclusive o Brasil. Foi um homem que, estejamos ou não de acordo, com as ideias e posturas, tornou Cuba uma nação soberana. Ocupa um território pequeno, mas um país onde qualquer coisa que acontece todo o mundo presta atenção.


…..Morre o Fidel, mas não morre a revolução cubana. Cuba é o único país do mundo que recebeu quatro visitas de Papas. E não é um país predominantemente católico. O Papa Francisco fez questão de ser Cuba a sede da sua reaproximação com a igreja ortodoxa, e da reaproximação com os Estados Unidos. Acho que Fidel morreu feliz pela coerência da sua vida.

Na Universidade torna-se dirigente da Federação dos Estudantes Universitários.

Em 1947 participa, na República Dominicana, na luta para derrubar a tirania de Trujillo.

A 26 de Julho de 1953 lidera a primeira tentativa de derrube da ditadura com o assalto ao Quartel de Moncada.

Em 2 de dezembro de 1956 desembarca do Granma com destino à Sierra Maestra.

Em 1 de Janeiro de 1959 entra triunfalmente em Santiago de Cuba seguindo-se, a 8, Havana. A Revolução triunfava. O povo aclamava e festejava!



Em entrevista a Ignácio Ramonet, sobre o assalto ao Quartel Moncada, Fidel refere-se assim: Quando decidimos atacar Moncada? Quando nos convencemos de que ninguém faria nada, de que não haveria luta contra Batista, e que todos aqueles grupos – nos quais muitas pessoas militavam – não estavam preparados nem organizados para levar a cabo a luta armada.

À pergunta: Lamenta algo que tenha feito? Fidel respondeu: Já pensei em alguma coisa que poderia lamentar, algo de que me pudesse arrepender. Cometi erros, mas nenhum foi estratégico, apenas tático. As pessoas lamentam-se de muitas coisas, às vezes até em discursos… Mas não tenho um pingo de arrependimento do que fizemos no nosso país e da forma como organizamos a nossa sociedade.

Ainda Ramonet: Eu gostaria, a esse respeito, de abordar o tema do futuro. Você já pensou em aposentar-se?

Fidel: Veja, sabemos que o tempo passa e as energias humanas se esgotam. Mas vou-lhe dizer o que disse aos companheiros da Assembleia Nacional em 6 de Março de 2003, quando me reelegeram presidente do Conselho de Estado: “Agora compreendo que o meu destino não era vir ao mundo para descansar no final da minha vida”. E prometi estar com eles, se assim desejassem, todo o tempo que fosse necessário, enquanto soubesse que poderia ser útil. Nem um minuto a menos, nem um minuto a mais.

..Tenho confiança, sempre o digo, mas estamos cientes de que são muitos os fatores que podem ameaçar um processo revolucionário. Há os erros de carácter subjectivo…Houve erros e temos a responsabilidade de não ter descoberto determinadas tendências e erros. Hoje eles já foram superados.

Em janeiro de 2008 diz a determinado momento da sua “Reflexão”: Aos revolucionários mais jovens recomendo especialmente a máxima exigência e disciplina sem ambição de poder, autossuficiência ou vangloriação. Não cair em métodos e mecanismos burocráticos. Não cair em simples slogans. Ter consciência da gravidade dos procedimentos burocráticos. Usar a ciência e a informática sem cair nas linguagens tecnicistas e ininteligíveis das elites especializadas. Sede de saber, constância, exercício físico e mental.

Na nova era que vivemos, o capitalismo não serve nem enquanto instrumento. É como uma árvore de raízes apodrecidas donde só brotam as piores formas de individualismo, a corrupção e a desigualdade.

.Sejamos dialéticos e criadores. Não há outra alternativa.

Fidel Castro viu reconhecida a sua acção por inúmeras organizações e instituições, nacionais e internacionais. Algumas delas: Em 1992 a Universidade Politécnica de Madrid agraciou-o com a Medalha de Ouro, em 1998 recebeu a Medalha de Ouro da O.M.S. (Organização Mundial da Saúde), em 2003 da Orden del Santisimo Salvador de Santa Brígida e do Movimento Indígena dos Estados Unidos da América, em 2008 da Igreja Ortodoxa Russa, em 2009 a Presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas atribuiu-lhe o título de Herói Mundial da Solidariedade.

Fidel Castro demonstra com a sua vida, a sua acção, que a vitória dos ideais de justiça e paz está ao nosso alcance. Assim o queiramos.

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