Trump como líder do imperialismo estadunidense. O que isso significa?

Nº 1737 - Out/Inv 2016
Publicado em Internacional por: John Catalinotto (autor)

No dia 20 de Janeiro de 2017, o magnata milionário do sector imobiliário, conhecido pelas suas posições e ideologia anti-islamitas, anti-imigrantes, racistas e anti-igualdade de direitos entre homens e mulheres tornou-se presidente dos Estados Unidos da América (EUA). Donald Trump é agora líder de um governo com um orçamento de cerca de quatro biliões de dólares e comandante supremo da mais poderosa e destrutiva máquina de guerra que a humanidade conhece.

Após 18 meses de uma exaustiva campanha eleitoral marcada pelo racismo, pró-capitalismo e supernacionalismo, o mais reacccionário candidato presidencial republicano, desde o senador Barry Goldwater em 1964, foi eleito pelo seu partido a 8 de Novembro. Trump ganhou as eleições graças ao um sistema eleitoral arcaico, mesmo tendo 2,7 milhões de votos a menos do que a candidata democrata Hillary Clinton, ou seja, menos dois por cento dos votos conseguidos por esta.

A habitual alternância entre candidatos republicanos e democratas, embora com as também habituais promessas em tempo de campanha eleitoral, resulta na continuação do sistema capitalista nos EUA. Os dois maiores partidos capitalistas ocupam, alternadamente, a presidência dos EUA - tal como as coligações de centro direita e centro esquerda ocupam os govenos parlamentares na Europa. Os democratas tendem a ter mais apoio dos sindicatos e pessoas de descendência estrangeira, enquanto os republicanos tendem a ter o apoio dos mais ricos e do eleitorado branco. Porém, ambos servem os interesses do capitalismo e do imperialismo, patente em toda a sua história.

Trump e o seu staff anunciaram que pretendiam romper com estes compromissos. Trump definiu a sua administração como a mais à direita da história recente dos EUA. Trump assumiu um corte com o passado e a inauguração de uma nova era social nos Estados Unidos. Os ganhos, poucos, obtidos pela classe trabalhadora, da segurança social à assistência médica, vão agora ser atacados. A vitória de Trump também se deve aos sectores mais intolerantes da sociedade norte-americana, ao exacerbar o ódio contra muçulmanos e imigrantes.

Ao contrário da ex-secretária de Estado Clinton, Trump também se assumiu como uma alternativa à esquerda. Clinton, dada a sua prestação como secretária de Estado, representava os interesses de Wall Sreet e do Pentágono. Hillary Clinton não conseguiu enganar ninguém com o seu discurso. Ninguém a identificou como defensora dos pobres e oprimidos, ou como defensora da paz. Mas sim como dando continuidade às políticas neo-liberais e às políticas imperialistas em matéria de negócios estrangeiros.

Mas nem todas as notícias são sombrias: a eleição de Donald Trump desencadeou enormes manifestações de protesto. E isto também é novo. Jovens, mulheres preocupadas com o direito à interrupção voluntária da gravidez, imigrantes e muçulmanos, mães negras activistas, ambientalistas (como os que se uniram contra o pipeline projectado para o Dakota do Norte) e trabalhadores que lutam pelo pagamento de 15 dólares por hora de trabalho, uniram-se na luta contra a eleição de Donald Trump.

Dez dias após a eleição de Trump, milhares de pessoas saíram à rua, em 40 cidades dos EUA, protestando contra a sua eleição, tendo como slogan: "Este não é o meu presidente". E mais do que isso, milhares assumiram acolher em suas casas muçulmanos e imigrantes, defendendo-os dos prometidos ataques de Trump e dos seus acólitos.

Acrescentar que o protesto das mulheres, que não o quiseram fazer coincidir com o dia da tomada de posse de Donald Trump (20 de Janeiro), foi convocado para o dia 21 de Janeiro e revelou-se enorme.

Quem está no gang de Trump?

Uma vez que Trump nunca explicou o seu programa eleitoral em detalhe durante a campanha, e dado que as suas posições mudam ao sabor dos "ventos", a melhor forma de avaliar o que da sua administração podemos esperar é olhando para as nomeações que fez.

Até agora, Donald Trump escolheu e nomeou oligarcas milionários, banqueiros, militares de alta patente, racistas e republicanos do movimento "Tea Party" (1), a que juntou alguns homens do aparelho partidário. Destes, vários, no passado, foram demitidos do Executivo, nomeadamente de departamentos de serviços sociais. Vejamos quem são:

Ministério(2) do Trabalho - Andrew F. Puzder é um multimilionário, cujas empresas (CKE Restaurants) empregam 70 mil trabalhadores. Financiou a campanha de Donald Trump e tem lucros de quatro a sete milhões de dólares por ano. Não causa, por isso, surpresa que seja um opositor do salário mínimo. É ainda um opositor do pagamento de horas extraordinárias.

Ministério da Educação - Betsey De Vos tem efectivamente dinheiro. É filha de um milionário e casada com outro milionário, herdeiro da Amway Corp, avaliada em 5,5 mil milhões de dólares. O irmão, Eric Prince, é fundador da Blacwater Corporation, que fornece mercenários para actuarem em todos os países, promovendo a desestabilização e a guerra. De Vos foi responsável por promover a educação privada com fins lucrativos em alternativa à educação pública no Estado de Michigan. Trump quer reduzir drasticamente as verbas com a educação, o que explica ter ido buscar Betsey De Vos.

Ministério da Economia - Wilbur Ross é um investidor, cuja riqueza é estimada em 2,9 mil milhões de dólares, segundo a revista Forbes. Ross tem defendido a imposição de tarifas acrescidas para os produtos importados da China.

Ministério das Finanças - Steven Mnuchin, multimilionário e ex-dirigente do Goldman Sachs, responsável pelas finanças da campanha de Donald Trump. O "treasury department" é, responsável, entre outros, pelos impostos sobre o rendimento, individual e colectivo.

Durante a campanha eleitoral, Trump atacou Hillary Clinton, acusando-a de ser um "peão" de Wall Sreet e criticando muito em especial a sua realação com o banco de investimento Goldman Sachs, o que, aparentemente, não afectou Munchin de permanecer ao lado do grande capital.

Conselho Económico Nacional (3)- Gary Cohn, outro dirigente de topo do Goldman Sachs, que possui centenas de milhares de dólares. Cohn e Mnuchin asseguram o controlo da Casa Branca por Wall Street.

Agência Ambiental (4) - Scott Pruitt, procurador-geral do Estado de Oklahoma, com interesses na indústria mineira. Desde a eleição de Trump, disponibilizou-se para pôr termo à Agência, bem como a anular todas as mais importantes regulamentações em matéria ambiental. Não é surpresa a nomeação de Pruitt, um homem que não acredita que as alterações climáticas tenham como causa a intervenção humana.

Ministério da Saúde e Segurança Social - Tom Price, republicano membro da Câmara de Deputados da Georgia, tutela o organismo que tem por missão aprovar novos medicamentos, que regula o fornecimento de alimentos, controla a investigação biomédica e assgura cuidados médicos e medicamentosos a mais de 100 milhares de pessoas. Price opôs-se ao Affordable Care Act que, independentemente das suas insuficiências, oferece a cerca de 20 milhões de pessoas, um seguro médico de que antes não dispunham.

O novo presidente dos EUA está rodeado de milionários e patrões. Todos eles se opõem abertamente aos direitos dos trabalhadores e são incapazes sequer de fingir que nutrem alguma simpatia pelas classes trabalhadoras e pelos mais desfavorecidos. E preparam o ataque a todos programas sociais de apoio às classes trabalhadoras.

Os restantes membros da administração Trump são políticos republicanos ou gente que financiou a sua campanha eleitoral. Qualquer administração republicana os podia ter escolhido.

Casa Branca dos horrores

Depois há os que comandam o aparelho do Estado: o Pentágono, a CIA, a Segunça Interna e o Departamento de Justiça, e cujas nomeações despertaram o medo e a revolta na população.

Departamento de Defesa - James "Mad Dog" Mattis, um general recentemente retirado do activo, foi o nomeado. O general Mattis, durante a ocupação do Iraque pelos EUA (2005) chegou a declarar "é divertido atirar sobre algumas pessoas". Isto não é apenas conversa, Mattis foi responsável pelo ataque à cidade de Fallujah em que morreram centenas de civis. Mattis também diz que as três maiores ameaças para os Estados Unidos são "Irão, Irão, Irão".

Segurança Interna - O presidente eleito pretende nomear o general marine de quatro estrelas John Kelly. Como responsável pela SouthCom, Kelly foi responsável pela prisão de Guantanamo, opondo-se ao seu encerramento. John Kelly afirma que os muçulmanos radicais deixam a América Latina e as Caraíbas para lutarem pelo Estado Islâmico. A construção do muro na fronteira com o México, tem em Kelly o seu concretizador.

CIA - Mike Pompeo, outro Tea Party republicano vindo do Kansas e também militar veterano. É quem controla a Agência Nacional de Segurança que Edward Snowden denunciou.

Conselheiro para a Segurança Nacional - Tenente-general Michael Flynn que num artigo publicado no New York Post promoveu o seu livro anti-Islão intitulado "Field of Flight" (Campo de Voo). Flynn assegura que os EUA estão "numa guerra global contra uma aliança de inimigos que vai de Pyongyang (Coreia do Norte) até Havana (Cuba), passando por Caracas (Venezuela)". Pelo caminho, esta aliança convoca muçulmanos em países como o Irão e em organizações como a Al Qaeda, os Talibá, o Estado Islâmico.

Departamento de Justiça - Jeffrey Sessions, senador do Alabama, será o procurador-geral encarregue de supervisionar a repressão interna. Em 1986, quando o presidente Ronald Reagan nomeou Sessions como magistrado federal para o Estado do Alabama, a sua nomeação foi vetada pelo Senado pelas suas posições abertamente racistas. Thomas Figures, um assistente negro da procuradoria geral, testemunhou na altura que Sessions disse que "os membros do Klu Klux Klan são gente fixe. Até foi com eles que aprendi a fumar marijuana" (CNN, 18 de Novembro).

Chefe de gabinete de Trump - Reince Priebus, presidente do Comité Nacional do Partido Republicano, que representa o estado-maior republicano. Caber-lhe-á fazer a ligação entre a administração e os congressistas republicanos.

Estrategista-chefe - Steven Bannon, outro dirigente do Goldman Sachs que foi director do grupo de media da ultra-direita, Breitbart News, até entrar na campanha eleitoral de Trump. Bannon tem um longo e documentado passado como racista, misógino e anti-semita. Media Maters, órgão de informação onine de direita, apelidou Bannon como "o nacionalista branco que odeia judeus". As "habilidades" de Bannon são caracterizadas como tendo por inspiração o ministro da propaganda do regime nazi Josef Goebbels.

Departamento de Estado - Rex Tillerson, presidente da Exxon. Após 12 de Dezembro, Trump deixou de indicar quem seria o novo secretário de Estado, mas rumores dão Tillerson como certo. Outros rumores garantem ainda que o neo-conservador John Bolton será o subsecretário de Estado.

A maratona eleitoral

O desenvolvimento mais optimista no decurso da campanha eleitoral para a presidência dos EUA foi o sucesso alcançado pelo senador de Vermont, Bernie Sanders. Hillary Clinton teve o apoio do aparelho partidário e grandes doações financeiras. Mesmo assim Sanders ainda recebeu cerca de metade dos votos nas primárias do Partido Democrata e manteve-se na corrida até à convenção que nomeou Clinton.

Em matéria de luta de classes, Sanders teve um discurso como não se ouvia desde as eleições presidenciais de 1948. Milhões de pessoas deram pequenos contributos para suportar a sua campanha, enquanto os candidatos apoiados por Wall Street foram Clinton e Trump. A generalidade das classes trabalhadoras reuniu-se em torno da candidatura de Bernie Sanders, no entanto, quando este desistiu a favor de Hillary Clinton, muitos destes eleitores perderam o entusiasmo e as expectativas. E se votaram em Clinton foi por temerem a vitória de Trump.

Desde o início da campanha eleitoral, Donald Trump beneficiou de uma enorme publicidade gratuita. Naturalmente toda a comunicação social de direita lhe concedeu o seu apoio - Fox News, por exempo. Mas os media do sistema - New York Times, Washington Post, Wall Street Journal, CBS Television, CNN - também publicitaram gratuitamente a campanha do candidato republicano. Desde que o milionário Trump se tornou uma celebridade para os media, estes retiraram disso proveitos. Para além disso, todos estes meios de informação injectaram na campanha eleitoral uma forte dose de ideologia reaccionária. Pelo contrário, o programa eleitoral de Sanders capaz de atrair os votos das classe trabalhadores, foi quase ingnorado pelos media.

Após Trump ter sido nomeado candidato republicano, os media enfeudados ao sistema ficaram preocupados e decidiram atacá-lo quase diariamente de diversas formas. Acusaram-no de racista, misógino e xenófobo, como de ser um grande amigo da Rússia. Para surpresa da maioria das sondagens, Donald Trump venceu as eleições.

Esta "inesperada" vitória, sentida como ameaça, impulsionou dezenas de milhares de pessoas para as ruas, incluindo muitos que nunca na sua vida haviam participado numa manifestação. Nas diversas manifestações realizadas após a eleição de Trump, em todo o país, estiveram muitos dos que apoiaram Hillary Clinton e se sentiram defraudados com os resultados eleitorais, mas também muitos outros que não votaram na candidata democrata que, assumem agora não ser possível permanecer neutral.

Há mesmo quem se sinta sob ameaça desde que Trump é presidente. Há mesmo quem se sinta solidário com grupos considerados alvos das políticas da nova administração e esteja a aderir às organizações que defendem os seus direitos. Esta "centelha" inicial, baseia-se na convicção de que as suas vidas podem mudar. Nestes protestos iniciais, muitos foram os manifestantes que se juntaram aos sectores mais oprimidos da sociedade dos EUA - população negra, imigrantes, muçulmanos, homossexuais. Isto é um bom sinal.

Uma certeza existe. Trump será incapaz de "trazer emprego para os EUA" pela renegociação ou denuncia de acordos com os sindicatos. O emprego na indústria diminuiu não tanto pela globalização económica, mas devido ao inexorável avanço tecnológico da indústria capitalista. A crise económica aprofundar-se-á. O capitalismo está num beco sem saída.

A esquerda estadunidense terá de encontrar formas para defender os sectores mais oprimidos e desfavorecidos e as classes trabalhadoras - serão estes sectores, aliás, a liderar a luta e a mudança -, unindo-se contra as políticas e a reaccionária administração Trump, mas igualmente contra o apodrecido sistema capitalista.

Política externa

O declínio do imperialismo económico dos EUA relativamente à Europa e aos chamados países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) pode empurrar os EUA em direcção a perigosas aventuras e guerras, independentemente de quem for o seu presidente. Tanto Trump como Clinton, e até Sanders, servem o imperialismo estadunidense. A actual crise capitalista, incapaz de gerar lucros em tempo de paz, significa que quem dirige o imperialismo é conduzido em direcção à guerra.

Barack Obama prometeu acabar com as guerras, mas a sua administração interviu, pelo menos, em sete países com forças militares e através da desestabilização. Hillary Clinton apoiou todas as guerras: Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, a desestabilização na Venezuela e noutros países da América Latina.

Trump é mais errático, uma espécie de "franco-atirador", embora apregoe estar pronto para negociar com Vladimir Puttin e vários membros do seu gabinete tenham negócios com a Rússia. Trump anunciou ser sua intenção romper os acordos celebrados pela anterior administração estadunidense com o Irão e Cuba. AImage 1635liás, Trump já quebrou o protocolo diplomático ao dirigir-se directamente ao presidente de Taiwan, território da China. Qualquer um que acredite que a presidência de Trump significa mais paz, não está atento.

A 11 de Dezembro do ano passado ocorreu uma polémica entre Donald Trump e a CIA, com a acusação de que o governo russo interveio nas eleições estadunidenses a favor de Trump. Qualquer que seja o desfecho desta polémica, os trabalhadores dos EUA devem intervir com o seu próprio programa, contra a reacção de Trump e contra qualquer guerra imperialista.

 

(Tradução A.G.)

(1) Em tradução livre: principais conservadores - ala mais à direita - do Partido Republicano

(2) Para facilitar a compreensão dos leitores designou-se "Ministério". Esta não é porém a tradução à letra ou livre de "Department". Porém, os responsáveis por cada "departement" equivalem a ministros

(3) O Conselho Económico Nacional equivale aos bancos centrais

(4) Equivale a um ministério do Ambiente

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