Cinema: "Eu, Daniel Blake" de Ken Loach

Nº 1738 - Primavera 2017
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

O realizador Ken Loach, com 50 anos de carreira, tem um percurso notável de coerência e consistência.

Inspirando-se na literatura vitoriana, em especial Charles Dickens, que critica abertamente a sociedade britânica com a sua hipocrisia e desprezo pelos mais humildes, ou ainda nas obras dos angry young men na década de 1950, que denunciam com furor as injustiças sociais, o cineasta sempre se revelou um crítico da sociedade em que vive, mantendo um olhar atento ao que se passa com as classes trabalhadoras.

Sobre a sua obra declara: “Quando começámos, abordávamos questões como o problema de alojamento, o aborto, a pobreza e procurávamos uma solução para essas questões. Mas hoje não existe uma cultura política que dê aos novos realizadores e escritores esse tipo de análise social”.

Neste filme conta-nos a história do marceneiro D. Blake, de 59 anos, que, depois de sobreviver a um ataque cardíaco, percorre repartições, gabinetes de saúde, centros de emprego com o seguinte objectivo: ser observado por uma junta médica que verifique o seu estado de saúde, a fim de ter o apoio financeiro a que tem direito, e encontrar um emprego compatível, logo que o médico o considere apto para o trabalho.

O trabalhador espera horas em filas intermináveis, tendo por vezes de voltar no dia seguinte. Quando por fim consegue ser recebido os funcionários protelam as respostas, exigem que preencha formulários, escreva cartas, compareça nas datas impostas, nunca lhe resolvendo a situação. Os serviços sociais não estão ali para ajudar, mas para complicar e tentar afastar o cidadão, que resiste e luta, revoltado.

Numa dessas repartições, penhadas de gente, conhece uma jovem mãe solteira com dois filhos que se encontra em situação difícil. É então que se revela toda a solidariedade e generosidade de Blake para com a pequena família, tornando-se o amigo indispensável.

Cansado da ausência de resposta dos serviços sociais, uma manhã afixa uma faixa na parede dum prédio com a seguinte frase: “Eu sou Daniel Blake, um homem”.

O acto é incómodo para uns, mas é aplaudido por outros e torna-se visível para todos, denunciando, resistindo, lutando contra a indiferença, a fim de despertar a atenção do público, para a degradação humana e social, afirmando igualmente a sua dignidade.

O filme, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes 2016, obteve ainda o Prémio do Público no Festival de Locarno e no Festival de S. Sebastian.

Ver todos os textos de DULCE REBELO