Cinema: "A Bela e o Monstro" de Bill Condon
Nº 1739 - Verão 2017
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)
Uma das primeiras adaptações da fábula foi realizada pelo poeta Jean Cocteau, em 1946, sendo considerada por muitos uma obra-prima.
Os diálogos, da autoria de Cocteau, cheios de emoção e lirismo são admiravelmente ditos por Jean Marais (o Monstro), célebre pela sua beleza e interpretações diversificadas, e pela actriz Josette Day ( a Bela) que viveu a sua personagem com grande intensidade e delicadeza.
A actuação dos artistas neste filme, que se desenrola num cenário surpreendente de grande beleza plástica, ainda hoje perdura na memória de todos que o visionaram.
Surgiu uma outra versão, em 1991, recriada pela Disney. Filme de animação ganhou 2 Óscares em 1992 na categoria musical. Um pela melhor canção (com o titulo do filme) e outro pela banda sonora da autoria de Alan Menken, com letras de Howard Ashman.
“A Bela e o Monstro” de Bill Condan é uma nova adaptação do fabuloso conto, onde a música continua a ser o grande motor do enredo.
O cineasta manteve as canções do filme anterior, mas introduziu outras novas, com música de Alan Menken mas letras de Tim Rice.
Lembremos o episódio do jantar de Bela no castelo, num ambiente pesado.
Por magia surpreendente os pratos, as chávenas os pires, os candelabros e outros objectos (que são os funcionários do palácio, também eles atingidos pelo “feitiço”) lançam-se numa sarabanda fantástica à volta de Bela cantando “Be our guest”. O jantar soturno transformou-se numa alegre festa.
Quanto à história, inspirada no conto de Le prince de Beaumont, é intemporal pois revela sentimentos, atitudes, comportamentos na vivência duma realidade que, sendo de ontem, se reflete no mundo de hoje.
Ema Watson, agindo com graciosidade, subtileza e determinação representa a protagonista.
Bela é uma jovem bonita, inteligente que, ao contrário das raparigas da sua aldeia e da sua época, que vedava o conhecimento ao género feminino, recebeu uma educação esmerada, proporcionada por um pai visionário, descobrindo na leitura dos livros novos mundos. Aliás os livros acompanham-na por toda a parte.
Requestada por Gaston, jovem garboso, ídolo das raparigas, que exibe constantemente as suas qualidades físicas, Bela rejeita-o pela vacuidade do seu espirito.
A profunda afectividade que a liga ao pai, acidentalmente preso no castelo dum monstro, no fundo da floresta, a jovem, solidária e generosa, oferece-se para o substituir na prisão. E assim acontece.
Quando lhe é permitido vaguear pela mansão, a heroína, corajosa e curiosa vai avançando no terreno sem se assustar com os rugidos do Monstro, que por fim lhe aparece e lhe abre as portas da sua imensa biblioteca.
Ele é vitima dum feitiço que o condena àquela figura animalesca para a eternidade se não encontrar alguém que o ame, o que é o mais provável,
O que vai aproximar estas duas figuras tão díspares é o amor comum pelos livros. Nos diálogos Bela descobre a profunda cultura, a inteligência, a generosidade daquele ser que só pode expressar o seu íntimo através do intenso olhar brilhante. Também vai descobrir a sua coragem para a defender dos ataques de Gaston, pusilânime e falso.
Profundamente apaixonado por aquela jovem o Monstro (Dan Stevens) não ousa revelar o seu segredo, mas Bela já não pode viver sem ele…
A declaração de amor, pronunciada por Bela, quebra finalmente o feitiço e o príncipe surge em todo o seu fulgor assim como todos os outros recuperam a forma humana.
Num cenário muito bem construído Bill Condon mantem toda a magia, a fascinação, o deslumbramento dum tema que tem sido alvo do interesse entusiasta do cinema.
Aliás o filme, e portanto a história, contém muitos ensinamentos a valorização da cultura e da justiça, da solidariedade e da generosidade, a importância dos afectos, o poder do amor, a integridade de caracter, o engano das aparências. Um exterior ingrato pode guardar no íntimo tesouros humanos únicos.
É ainda de assinalar a modernidade da personagem Bela. É uma rapariga simples, mas com força de carácter, destemida inteligente, culta, determinada, que pensa pela sua cabeça. Insensível ao luxo, prefere a sabedoria dos livros, o conhecimento do próximo e a descoberta do mundo.
Não poderíamos exigir mais.
