Cinema: "Eu não sou o teu negro" de Raoul Peck

Nº 1739 - Verão 2017
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

Raoul Peck realizou um filme excelente, pela escolha do tema, a construção arquitectónica das cenas, baseadas em situações reais, e a “mise en scène” impressionista.

É um documentário, sem dúvida, que resgata a voz de James Baldwin (1924-1987), escritor, romancista, dramaturgo, activista dos direitos civis nos anos 60. Mas é mais do que isso. É uma narrativa em que nos conta as vidas de 3 activistas negros assassinados (Medgar Evers, Malcolm X, Martin Luther King Jr.) e seus amigos. É ainda a história íntima do escritor, dolorosa e pungente, pois o protagonista não se identifica com a sociedade americana do seu tempo, castradora, segregacionista, que inventou o mito do nigger, ser estranho e incompreensível.

A partir dum texto inacabado de J. Baldwin, um manuscrito de 30 páginas com anotações, o cineasta desenvolve o seu trabalho, fazendo-nos descobrir as palavras do romancista (admiravelmente evocadas por Samuel L. Jackson), mas também a sua imagem projectada no ecrã, figura elegante e digna, pronunciando-se em discursos e entrevistas.

Recorrendo a imagens de arquivo dos anos 60 e de outras mais recentes cruza o passado e o presente para nos contar não tanto a situação dos negros na América, mas antes revelar os sistemáticos ataques contra os negros. É o país que está em causa, como sublinha o romancista: “A história do negro na América é sobretudo a história da América e não é uma história brilhante”.

As palavras de James Baldwin, escritor de espantosa lucidez, ressoam no mundo actual com enorme força, já que se vê a América do nosso tempo a regredir com uma tensão racial a aumentar cada vez mais na sociedade.

Desiludido com o seu país e as permanentes convulsões, Baldwin mudou-se para Paris, reconhecendo, com desgosto, que o sonho americano é uma história de violência interminável.

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