Notas de Leitura: A Europa Alemã De Maquiavel a «Merkievel»: Estratégias de poder na crise do Euro, de Ulrich Beck

Nº 1739 - Verão 2017
Publicado em Cultura por: M V (autor)

O autor do livro em referência, Ulrick Beck, parte de uma citação de Thomas Mann, em 1953, na qual o célebre escritor terá exortado a juventude de Hamburgo a não aspirar a uma “Europa alemã, mas antes a “Alemanha europeia”, para chegar a uma outra citação, de 2012, esta do historiador inglês Timothy Garton Ash que afirma estarmos a assistir ao surgimento, que poucos previam, de uma “Alemanha europeia numa Europa alemã”.

Em abono desta tese, o autor do livro, Ulrich Beck, interroga-se em como isto foi possível e procura indagar as consequências da tal metamorfose europeia. E afirma, a propósito, que, contexto das opiniões expendidas actualmente, o debate público está determinado quase exclusivamente pela económica, sendo, porém, que não estamos apenas perante uma “crise da economia” e do pensamento económico, mas perante uma crise geral que reflecte uma crise da sociedade e do “político”, e, consequentemente, a falta de “compreensão (…) da sociedade e da política”.

Propõe-se assim o autor a uma nova interpretação da crise europeia”, tendo como referência a sua própria teoria da sociedade de risco”, ou seja, uma visão da crise da Europa e do euro, como epifenómeno de “uma modernidade fora de controlo”, apresentada nos seus livros.

E, a propósito, salienta que há muita gente a defender que, para resolver a crise “necessitamos mais Europa”, quando na verdade a ideia de mais Europa, porventura, nem sequer será concebível e compreendida pelas sociedades dos diversos Estados membros e interroga-se o autor se será verdadeiramente possível sequer uma política fiscal, económica e social comum no espaço da União Europeia.

“Ou será que – pergunta-se o autor – ao longo do processo de unificação política, a questão decisiva de uma sociedade europeia foi suprimida demasiado tempo, tendo sido as contas feitas sem o soberano – isto é, sem os cidadãos?”

Nesta linha de pensamento, sustenta Ulrich Beck que o que está verdadeiramente em jogo não é apenas impedir o colapso do Euro, mas muito mais que isso, ou seja, o colapso “dos valores europeus de abertura ao mundo, paz e tolerância”.

E prossegue o autor salientado que à primeira vista tudo na crise da União Europeia gira à volta de dívidas, défices orçamentais e problemas financeiros, quando a verdadeira questão é saber-se “até que ponto pode, deve ou tem de ser, ou de se tornar a Europa solidária”.

Considera o autor que, para as novas gerações, a “pátria Europa” se tornou uma “segunda natureza”, sendo essa, porventura, uma das razões pela qual que os problemas decorrentes da crise europeia sejam tão levianamente considerados.

E, a propósito, lembra o autor do livro, António Gramsci e o conceito de crise como o momento em que em que a velha ordem morre e em que é necessário por um mundo novo, contra resistências e contradições” para, mais à frente, caracterizar a União Europeia como “sociedade de risco” e descrever os elementos mais salientes da actual crise europeia, que se manifestam na tensão entre a lógica do risco e a lógica da democracia”.

E, nesta perspectiva, admite o autor que a União Europeia poderá evoluir em um de dois sentidos – ou consegue “ultrapassar definitivamente a história bélica dos estados nacionais e dominar as crises actuais através de uma cooperação democrática”; ou, caso contrário, “as reacções tecnocráticas à crise abrem caminho ao fim da democracia”, uma vez que “as medidas alegadamente necessárias serão legitimadas através da invocação de catástrofe iminente e qualquer oposição é declarada inadmissível e, nesse sentido, a governação assumirá forma absolutista”.

Ulrich Beck dedica algumas páginas à nova distribuição dos poderes na Europa”, referindo que até há pouco tempo era habitual criticar a “cacafonia” das diversas vozes em que se exprimia a União Europeia, ou seja, a proliferação de órgãos e instâncias de poder, para de repente a Europa ter apenas um telefone – “está na Alemanha e pertence – actualmente – a Ângela Merkel”.

E salienta que esta nova arrumação de poderes a favor da Alemanha decorre das diversas cisões no interior da União Europeia (cisão entre os países da zona euro e países da EU, cisão entre países devedores e países credores) que se cruzam e entrecruzam e, dessa confusão de catástrofe iminente, Ângela Merkel soube aproveitar, conforme a actualidade da teoria do poder de Maquiavel e a moderna “teoria da sociedade mundial em risco”.

Apesar de editado em Portugal em 2014 o livro em referência não é uma obra datada; pelo contrário, julgo que factos e acontecimentos políticos posteriores à sua publicação, como sejam o Brexit ou eleição de Trump, nos EUA, conferem ao livro uma renovada actualidade.

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