Raul Brandão e os jornais

Nº 1739 - Verão 2017
Publicado em Memória por: Vasco Rosa (autor)

Sabemos ainda tão pouco acerca da biografia de Raul Brandão, que a seu respeito persistem ideias vãs que só não geram perplexidade porque justamente se tornaram lugares-comuns. Passamos por elas como cão por vinha vindimada: não topamos patavina. E no entanto, algo ali está à espera da nossa atenção.

Ainda ninguém questionou, por exemplo, porque foi que o nosso escritor, depois de ter esperado tanto pelo prefácio de Guerra Junqueiro, demorou ainda três anos para lançar Os Pobres, e que depois de obtida essa garantia tão excepcional de legitimidade literária, só reaparecesse nos escaparates oito anos depois, e com um ciclo de obras históricas que comprovam uma radical mudança de rumo, além de um trabalho de leitura muito aturado e sem precedentes: A Conspiração de 1817, El- Rei Junot e O Cerco do Porto.

Outro mito consagrado, o do seu republicanismo, também cai do pedestal se notarmos que em Outubro de 1910 Raul Brandão era chefe de redacção dum jornal de monárquicos, O Imparcial, que abandona dias depois, logo que o viracasaquismo da praxe foi declarado pelos seus proprietários. Foi então que pôs um fim abrupto a uma longa, persistente e repartida colaboração de imprensa, retomada é certo, no ano seguinte e por poucos meses apenas, para atender à urgência de um amigo, assegurando a chefia dos redactores do República de António José de Almeida, jornal em que nunca assinou uma linha e o seu nome jamais apareceu no cabeçalho. Em Uma Vontade e um Coração, Maria Angelina Brandão diz muito claramente que Raul “nunca foi um republicano assumido”, mas isso não impediu, mesmo depois de 1959, que essa apropriação indevida fosse difundida e propagandeada à outrance.

Também ainda não vi explicado como foi que Raul Brandão resolveu aparecer em 1901 com o folheto O Padre, afirmando uma posição muito clara sobre a “questão religiosa”, um pleonasmo para o anticlericalismo apocalíptico que quase diariamente se repercutia a ferro e fogo nas primeiras páginas dos jornais, nem localizei notícias, comentários ou críticas que tal escrito pudesse ter suscitado, o que nos deixa completamente ignorantes acerca da recepção desse ensaio cujos méritos todavia seriam elogiados em 1983, na reedição Vega promovida por José Manuel Vasconcelos.

Podemos estender a nossa perplexidade até ao facto incontornável de que, sendo ele um tripeiro tão orgulhoso de o ser, em quarenta anos de vida literária nunca escreveu — sequer ocasionalmente — para os grandes jornais do Porto, O Comércio do Porto e O Primeiro de Janeiro, e que as suas colaborações na imprensa do Norte, onde viveu grande parte da sua vida, se tenham cingido a periódicos de periferia, alguns deles de duração efémera.

Pessoalmente, não duvido que jornais e revistas literárias podem revelar-nos as cumplicidades de grupo ou os encontros fugazes entre a gente das letras e artes, e como tal sejam caminho firme para a reconstituição da história cultural de qualquer época específica ou para a crónica biográfica de um dos seus personagens. Mas então, algumas perguntas precisam de ser feitas. Não terá sido o precoce empenho de Raul na renovação do teatro, afirmado em colunas d’O Correio da Manhã a meio da década de 1890, a facilitar-lhe alguns anos depois a colaboração na Revista Literária, Científica e Artística de O Século, dirigida precisamente por um distinto dramaturgo, Eduardo Schwalbach? Não terá sido a iniciativa da sua Revista de Hoje a levar os quadros do seu amigo Columbano ao Palácio de Cristal do Porto em Maio de 1895, pouco antes expostos na livraria de Monteiro Carvalho, ao Chiado, a facilitar-lhe a publicação no ano seguinte de A Morte do Palhaço por este mesmo editor? Não terá sido a forte motivação teatral do nosso autor a conduzir-lhe a escolha de Julião Machado, um renomado cenógrafo lisboeta, para ilustrador da impactante capa de A Farsa? E não terá a leitura dum discreto livro de 1899 — Histórias das Ilhas. Reminiscências dos Açores e da Madeira — dos seus amigos Maximiliano de Abreu e Celso Hermínio exercido ao menos uma remota sugestão para As Ilhas Desconhecidas, sem se negar que elas são também um claro e imediato complemento de Os Pescadores e de algumas páginas do Guia de Portugal de Raul Proença? É pelo menos o que nos indica o inesperado e ainda inédito A Ilha do Corvo, escrito em 1909 para um livro colectivo que nunca saiu, em que a vida comunitária dos corvinos aparece descrita como um mundo ideal implantado no meio do mar e que nenhumas revoluções foram capazes de instaurar.

Do pouco que se sabe

Nada ou quase nada sabemos, também, sobre a sua recepção em vida no Brasil, sobre a eventual divulgação ou crítica dos seus escritos em jornais e revistas de lá, muito embora tudo isso pudesse ter sido facilitado pela excepcional presença no Rio de Janeiro de três pessoas muito próximas de Raul Brandão: em primeiro lugar, o artista plástico Celso Hermínio, que ali tentou a sua sorte em 1904-6; depois, Justino de Montalvão, diplomata, camarada de letras e amigo de juventude que na primeira página dum grande jornal carioca saudou Húmus; sobretudo Álvaro Pinto, editor da Renascença Portuguesa, que se instalou na então capital brasileira em 1919-36; mas também Guerra Junqueiro, mestre, amigo e prefaciador, que sem nunca ter ido ao Brasil ali tinha fabulosos créditos nos meios literários; e até mesmo o citado Julião Machado, capista de A Farsa, que também se aventurou por terras e delícias cariocas e por lá se ficou.

Todo este elenco de questões por ver — que nem sequer é exaustivo — pouco se compara àquela outra, que ainda importa esclarecer, apesar dos progressos feitos, que é a de Raul Brandão colaborador de imprensa.

Por parcimónia, indiferença ou preguiça, o escritor não guardou no seu arquivo tudo o que foi escrevendo em jornais e revistas, e nem sequer a sua mulher relatou as suas múltiplas e diferenciadas andanças jornalísticas desde a juventude. Em 1938, Maria Angelina não soube responder a Aquilino Ribeiro, que lhe perguntou por tudo isso para um importante verbete enciclopédico, informando-o apenas que Raul deitara ao lixo grande quantidade de papéis velhos. Também Manuel Mendes sabia muito pouco, para não dizer absolutamente nada, acerca das primícias jornalísticas do seu mestre, com o qual conviveu poucos mas determinantes anos na Seara Nova. Túlio Ramires Ferro transcreveu na sua tese de 1943 algumas crónicas brandonianas no Correio da Manhã, e não foi além disso, e João Pedro de Andrade, embora postulasse que o jornalismo influenciara muito o estilo do nosso escritor, nenhuma pesquisa em hemeroteca realizou com vista ao seu livro de 1964, que é uma recensão crítica em forma de ensaio apresentada sob o aparatoso título de Vida e Obra de. A biografia de Guilherme de Castilho, publicada em 1978, é a primeira obra a reportar uma série de periódicos aos quais Raul Brandão prestou colaboração, e eu sempre me espantei como foi que um diplomata em exercício no estrangeiro (ou alguém por ele) conseguiu respigar e evidenciar pela primeira vez essa constelação de textos dispersos por dezenas de publicações antigas, algo que tão-pouco no centenário do nascimento havia sido tentado ou conseguido, como comprova a extrema modéstia do catálogo da exposição biobibliográfica na biblioteca pública municipal do Porto de 1967, aliás impresso apenas sete anos depois. Por todos os motivos, o zelo de Castilho representou um assinalável passo em frente, que em 1988 permitiu a Luiz Francisco Rebello juntar às peças teatrais num volume de obras completas pela editora Comunicação, alguns textos de imprensa de Raul Brandão sobre dramaturgia, e pouco depois ainda possibilitou a Vítor Viçoso outros horizontes de crítica para a sua tese de doutoramento, A Máscara e o Sonho, e mais recentemente acrescentar em nova edição de Os Pescadores o folheto do batel Vai com Deus publicado em 1901.

Como explicar cinquenta anos de indiferença aos textos dispersos dum escritor tão marcante? Podemos admitir que terá sido porque nas academias tais textos foram vistos, durante muito tempo, ou pelo menos durante algum tempo, como uma espécie de subliteratura, mas a verdade é que essa tão excêntrica caturrice de folhear jornais velhos e fragilizados também teria permitido descortinar, en passant, a própria recepção da obra brandoniana pelos seus contemporâneos, um aspecto ao qual também nunca foi prestado devido cuidado, pois só em finais de 2016 vieram a público algumas críticas a A Morte do Palhaço publicadas logo após a sua publicação. Diria portanto que foi sobretudo por causa do longo eclipse a que o caso Raul Brandão foi submetido, até no plano editorial, porque a renovação livreira da sua obra apenas teve lugar, e sempre lentamente, a partir do momento em que os seus livros caíram em domínio público, permitindo aos editores imprimi-los sem encargos autorais nem intermediações, tantas vezes aborrecidas e complicadas, como sabemos.

Seja como for, a colecta desses dispersos de imprensa foi concretizada em 2013 com A Pedra Ainda Espera Dar Flor, que é já uma segunda etapa desse meu trabalho. Como desde então ainda trabalhei bastante sobre Raul Brandão, já descobri e publiquei outros textos dele, em jornais imprevistos, como O Repórter, onde em 1894 a sua colaboração foi anunciada como a de um dos grandes valores da sua geração, ou como O Jornal do Comércio, em 1899. Outro dia dei de caras com uma pequena brochura dedicada a Eduardo Coimbra, na qual Petrus reproduz dois textos de Raul de Brandão datados de 1885 e 1887, fazendo crer que já então, 18 e 20 anos, escreveria para jornais, o que afinal não surpreende. Nada obsta a que os contos incluídos em Impressões e Paisagens, de 1890, ou textos de outro tipo, tenham tido prévia divulgação em folhas nortenhas, num raio geográfico que claramente transcende a cidade do Porto; e para o facto já me chamou a atenção um bibliotecário de referência na principal biblioteca dessa cidade, onde um grande número de miscelâneas continuam por examinar. O que ainda podemos achar só o saberemos procurando.

É realmente nessas duas primeiras décadas da vida literária de Raul Brandão que agora mais devem concentrar-se os esforços de pesquisa acerca da edição e recepção da sua obra, uma tarefa ainda de considerável porte que não poderá ser levada adiante sem meios que a suportem. Por isso, proponho a este colóquio a constituição de um seminário permanente, digamos que um formal Centro de Estudos Brandonianos, capaz de obter recursos e atrair e afirmar novos estudiosos de longo e renovado fôlego, que aliás despontam, fazendo notar duas coisas: primeira, que todos os máximos brandonianos — Vítor Viçoso, José Carlos Seabra Pereira e Maria João Reynaud — já estão ou estarão em breve todos arredados das suas funções académicas, perdendo a possibilidade directa de promover e estimular novas aproximações à vida e obra do nosso inesquecível escritor; segunda, que foi depois de Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, José Blanco e Eduardo Lourenço que uma nova geração de estudiosos de Fernando Pessoa, com o colombiano Jeronimo Pizarro, o alemão Steffen Dix, o norte-americano Richard Zenith e o argentino Patricio Ferrari à cabeça (quatro estrangeiros, portanto...), o conduziu verdadeiramente ao apreço e reconhecimento internacional — que Raul Brandão também merece.

*Editor de A Máscara e o Sonho de Vítor Viçoso (Cosmos, 1998) e o organizador dos Dispersos de Raul Brandão (A Pedra Ainda Espera Dar Flor, Quetzal, 2013). Reuniu os seus escritos brandonianos no volume Cinzento e Dourado, de próxima publicação pela Imprensa Nacional. Também preparou A Vida e o Sonho. Inéditos, antologia e guia de leitura de Raul Brandão, a sair pela E-Primatur.

(Comunicação ao colóquio Primavera Eterna dedicado a Raul Brandão e realizado no Hotel de Seteais por iniciativa de Rodrigo Sobral Cunha e Vítor Viçoso, de 25 a 28 de Maio de 2017)

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