Romeu Correia O Homem, o escritor, o resistente do nosso tempo

Nº 1739 - Verão 2017
Publicado em Memória por: Joao Eduardo Geraldes (autor)

Celebramos em Novembro próximo, propriamente no dia 17, o primeiro centenário do nascimento de Romeu Correia, escritor e dramaturgo de raiz e produção literária intrinsecamente popular.

Nascido decorridos os dez dias da Revolução que abalaram o mundo, na localidade ribeirinha de Cacilhas, porto de embarque e chegada que liga as margens do grande Rio entre o Sul e a Capital, Romeu Correia não seguiu caminho longo naquela que consideramos educação formal, que recebemos nas escolas. Concluído o exame do então 2.º grau da instrução primária, foi depois apenas efémera a frequência de uma escola industrial, terminando por aí a sua aprendizagem através dos manuais.

Não seria essa razão suficiente para que o nome e a obra de Romeu Correia não se encontrem, hoje, perenes e solidamente inscritos na História da Arte, da Cultura, da Literatura e do Teatro Português.

Ainda nos nossos dias, Romeu Correia permanece como um dos escritores e dramaturgos portugueses mais vezes levado à cena, percorrendo os quatro cantos de Portugal, a que acrescenta alguns outros além fronteiras. É um dos autores cujos textos mais vezes foram vistos, apreciados e interpretados pelos públicos, por muitos públicos distintos, com origens e natureza bem diversas.

A propósito do centenário do nascimento de Romeu Correia, e mais ainda a propósito da sua obra, justifica-se o registo de algumas opiniões críticas que foram trazidas a público por diferentes estudiosos da obra e do autor. Luiz Francisco Rebello refere-se a Romeu Correia como um “escritor de raiz autenticamente popular, arrancando os seus temas (dramáticos e narrativos) à sua experiência dos meios proletários e pequeno-burgueses da capital e da sua cintura”, acrescentando que fruto dos contactos do autor com grupos de teatro amador na sua terra, Almada, o autor consolidou “uma carreira de autor dramático que o levaria até à primeira fila do nosso teatro contemporâneo e em que se combinam habilmente elementos do teatro de fantoches e de feira, do circo, do melodrama populista e do teatro de vanguarda”.

Rebello, ainda, qualifica Romeu Correia como “o mais genuíno dos dramaturgos de tendência neo-realista”, e António José Saraiva considera-o “a maior revelação teatral do neo-realismo”.

Mendonça sublinha a alteração de rumo do dramaturgo, reconhecendo a sua adesão inicial ao movimento neo-realista, para posteriormente oscilar “entre o irreal e o vital, o imaginativo e a realidade comezinha, excepto na «crónica dramática e grotesca» Bocage, que, sendo um dos belos exemplos de teatro épico em Portugal, se institui, sobretudo, como uma narrativa de visualização plástica”.

Carlos Porto revela-nos uma conjugação do realismo popular com elementos imaginários na obra de Romeu Correia, e a recusa do autor “à fixação num modelo rígido que aliás o neo-realismo não impõe”, e Mário Sacramento sublinha a expressão dos “conflitos sociais integrando-os no qua há de ritual poético no melhor teatro”.

Construída a pulso, a senda criativa autodidata percorrida por Romeu Correia possui um inquestionável fio condutor, que o guiou toda a sua vida: sacrificar alguns dos prazeres da vida mundana e dos seus tempos livres, investindo na sua valorização pessoal com o fito último (e único) de aprofundar as suas próprias capacidades para mais e melhor servir os seus semelhantes.

Consciente do seu poder de comunicação, é no movimento associativo em Almada que ganha os alicerces para o que viria a ser o seu ofício primordial, a escrita. Ficção e, sobretudo, teatro.

No movimento associativo popular

Romeu Correia deixou-nos como testemunho o seu imenso apreço pela atividade do Movimento Associativo Popular, sublinhando em múltiplas ocasiões e sempre que a oportunidade se lhe deparava, a sua enorme importância na vida concreta, quotidiana das pessoas, e na resistência à ditadura, na luta contra o fascismo.

Romeu Correia considerou-se ele próprio um produto genuíno do Movimento Associativo Popular. É precisamente na sua qualidade de “militante” nas coletividades do seu concelho, que primeiro ganha o prazer da escrita, e depois aprofunda o seu carácter progressista e de resistência.

Em plena Guerra, corria o ano de 1943, abraça com entusiasmo a tarefa de criar a biblioteca popular da Academia Almadense. Ao mesmo tempo, e de forma não menos entusiástica, reanima idêntico espaço de cultura, saber e conhecimento, a então desativada biblioteca da Incrível Almadense, outra das centenárias coletividades de Almada.

Integrando um grupo de jovens democratas e antifascistas, organiza inúmeros recitais, colóquios e palestras, uma experiência que determina, em larga medida, a sua opção pela escrita. Aprofundando uma consciência que não lhe permite mais calar a indignação e a revolta, Romeu Correia utiliza a expressão escrita para dar a conhecer ao mundo uma sensibilidade artística particular, que viria a transformar a sua obra num dos pontos de referência mais significativos da literatura portuguesa do século XX.

Colocando-se ao lado dos explorados e oprimidos, toda a obra literária de Romeu Correia – os seus romances, os seus contos, os seus textos dramatúrgicos –, documenta a vida quotidiana das classes trabalhadoras de que o escritor jamais se desprendeu.

O autor de obras como o conjunto de contos reunidos sob o título Sábado Sem Sol assume assim uma opção de classe que o coloca sob a mira e perseguição do estado fascista e dos seus aparelhos mais obscuros de repressão.

Dois meses depois da publicação dos contos de Sábado Sem Sol – importa sublinhar que o valor integral da venda da edição reverteu para as bibliotecas populares da Academia Almadense e da Incrível Almadense –, o regime fascista proíbe a obra, e o seu braço tentacular, a PIDE, encarrega-se de (tentar) executar a ordem de apreensão da edição.

Mais do que avisados sobre a sanha repressora do fascismo, autor e editores conseguiram subtrair à “vigilância” dos esbirros do regime fascista quase todos os livros editados; a PIDE conseguiria apreender apenas 50 dos mais de 2.000 exemplares que integravam a edição.

Da sua bibliografia, e depois de Sábados Sem Sol, destacam-se, entre outros, os romances Trapo Azul, Calamento, Gandaia, Desporto-Rei, este o primeiro romance escrito em Portugal que assume uma crítica frontal à alienação associada ao espetáculo desportivo, e Bonecos de Luz, talvez o romance mais conhecido e mais encenado do autor, uma homenagem prestada ao grande humorista e resistente Charlie Chaplin.

São, contudo, os seus textos para teatro que mais distinguem a obra de Romeu Correia. Todos os textos que escreveu foram, e são ainda nos dias que correm, levados à cena tanto por grupos de teatro de amadores, como por companhias profissionais.

Percurso cronológico

Esboçando um percurso cronológico de Romeu Correia, recuamos aos finais dos anos de 1930. Em 1938 publica Razão, uma farsa carnavalesca que foi a sua peça de estreia, representada pela primeira vez em 1940 por um grupo de teatro de amadores de Almada.

Assíduo frequentador de espetáculos de teatro, foi sobretudo através do Teatro Estúdio do Salitre que contactou com as tendências estéticas contemporâneas, expressas de forma evidente nas suas peças Laurinda, de 1949 e editada nesse ano nas páginas da revista Vértice, As Cinco Vogais, de 1951 e Desporto-Rei, de 1955.

Casaco de Fogo (1953), Céu da Minha Rua (1955), Laurinda (1956), Sol na Floresta (1957), Bocage (1965), Jangada (1966), Amor de Perdição (1966), a partir do romance de Camilo Castelo Branco, O Vagabundo das Mãos de Ouro (1960), O Cravo Espanhol (1970), Roberta (1971), Tempos Difíceis (1982), Grito no Outono (1982), O Andarilho das Sete Partidas (1983) e A Palmatória (1995), são os textos para teatro da autoria de Romeu Correia que maior destaque alcançam na dramaturgia portuguesa.

Para as suas obras, marcadas por forte ligação às fontes da tradição oral popular, escolheu sempre, em coerência com a sua opção de classe, ambientes considerados marginais à sociedade dominante. O circo, as feiras, o teatro de fantoches ou outros grupos ditos “marginais”, foram temas de inspiração predileta na sua abordagem literária à vida, às pessoas e à sociedade em que viveu.

A qualidade literária da obra de Romeu Correia justificou a sua distinção com alguns prémios, entre os quais o Prémio da Crítica em 1962, o Prémio da Casa da Imprensa – Óscares da Imprensa, também em 1962, o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa em 1976, e o Prémio de Teatro 25 de Abril da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro em 1984. Pelo seu contributo para a Literatura Portuguesa, mas igualmente pela dedicação que sempre dedicou a Almada, Romeu Correia foi distinguido pela Câmara Municipal de Almada com a Medalha de Ouro da Cidade em 1978.

Numa atitude de coerência com a sua posição de resistência e luta antifascista, Romeu Correia recusou corajosamente em 1972 o Prémio Alfredo Cortês, atribuído pelo então Secretariado Nacional de Informação.

Mais significativo do que as diferentes distinções oficiais, é o reconhecimento da qualidade da obra de Romeu Correia pelas instituições académicas, começando pelas estruturas responsáveis pela conceção e elaboração dos manuais escolares.

Bonecos de Luz, o seu romance mais consagrado e cuja primeira edição data de 1961, foi diversas vezes incluído em manuais escolares do 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, e foi obra de leitura recomendada no 3.º ciclo do ensino básico e secundário.

Também no estrangeiro, as obras de Romeu Correia obtiveram reconhecimento e justificaram tradução para as respetivas línguas. O mandarim (China), o húngaro, o checo, o alemão, o russo, o polaco e o italiano são algumas das línguas em que a produção literária de Romeu Correia se encontra parcialmente traduzida.

A academia internacional reconhece igualmente a sua obra. Algumas Universidades desenvolveram estudos sobre o autor, encontrando-se entre as mais representativas a Universidade de Cardiff, Reino Unido, a Universidade de Paris-Sorbonne, França, e a Universidade de Grenoble, França, onde em 1996 foi concluída uma tese sobre a obra de Romeu Correia.

A biografia do autor pode igualmente ser encontrada em diversos dicionários de autores internacionais, destacando-se neste quadro The International Authors and Writers Who's Who (Cambridge, Reino Unido), Who's who in the World (Chicago, Estados Unidos da América), Who's Who in Europe (Amesterdão, Holanda), ou Dictionary of International Biography (Cambridge, Reino Unido).

O desportista, o resistente antifascista

Uma faceta quiçá menos conhecida do escritor e dramaturgo Almadense, foi a sua atividade desportiva de competição.

Dotado de condições físicas de exceção, Romeu Correia dedicou-se desde muito cedo à prática desportiva, integrando uma geração de atletas Almadenses que brilharam na prática da ginástica e do atletismo.

Considerando a época e o estádio do desenvolvimento da prática desportiva e da cultura física em que Romeu Correia viveu, podemos considera-lo como um atleta completo, praticando diversas modalidades desportivas, como o atletismo e a ginástica já referidas, mas também o boxe.

Como desportista, foi campeão nacional de atletismo e de boxe amador. Fruto dos conhecimentos adquiridos na prática desportiva, mas também do estudo do fenómeno desportivo e das suas vantagens para a qualidade de vida dos indivíduos a que se dedicou, ofereceu mais tarde os seus conhecimentos e competências dando aulas de cultura física em diversos pontos do país.

Também na prática desportiva, Romeu Correia assumiu as suas qualidades de Homem bem à frente do seu tempo. Com a sua mulher, que fora seis vezes campeã regional e cinco vezes campeã nacional de atletismo, criou na década de 1940, no emblemático Almada Atlético Clube, um dos primeiros núcleos femininos de praticantes de atletismo em Portugal.

Nessa época negra de opressão e ditadura, a prática desportiva das mulheres era tido como “indecente”. Indecente não apenas pelos “bons costumes” tão apregoados à época, que impediam as mulheres de se apresentar publicamente nas pistas de competição envergando camisolas de mangas curtas e calções de meia perna, mas sobretudo porque a repressão e a violência exercida sobre o Povo Portugueses pelo regime fascista se fazia sentir, com particular acuidade, sobre as mulheres, a quem não eram reconhecidos quaisquer direitos de participação ativa na vida da comunidade.

Romeu Correia foi, ainda, dirigente associativo e participante ativo no processo político português, primeiro ao lado da Oposição Democrática na resistência ao regime fascista imposto aos portugueses, após do 25 de Abril de 1974 na intransigente defesa da Revolução em diversas organizações, e como eleito em órgãos do Poder Local Democrático instituído pela Constituição Democrática da República aprovada e promulgada em 1976.

Em 1965, Romeu Correia integrava a direção da Associação de Escritores Portugueses quando a PIDE assaltou as suas instalações, em represália pela decisão de atribuição do Prémio Literário promovido por aquela Associação ao escritor Angolano Luandino Vieira.

Pertenceu e participou no Movimento de Unidade Democrática que se opôs ao regime fascista, tendo nessa qualidade tomado parte ativa na campanha da candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República em 1949, intervindo em diversos comícios eleitorais no Distrito de Setúbal.

Após a Revolução de Abril de 1974, foi eleito para a Assembleia Municipal de Almada nas primeiras eleições para os Órgãos do Poder Local Democrático nascido com a Constituição Democrática da República, como primeiro candidato da Frente Eleitoral Povo Unido (FEPU, coligação entre o Partido Comunista Português, Movimento Democrático Português/Comissões Democráticas Eleitorais e Frente Socialista e Popular) àquele órgão do Município de Almada, tendo presidido à primeira reunião daquele órgão na qualidade de primeiro candidato da lista mais votada.

No processo de consolidação do regime democrático nascido com a Revolução de Abril, Romeu Correia integrou ainda a Comissão Nacional do Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais para a Defesa da Revolução (MUTI), a Presidência do Conselho para a Paz e Cooperação, a Presidência da Comissão de Defesa da Constituição da República Portuguesa, a Liga dos Direitos do Homem, e a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP).

O Homem, o Escritor, o Resistente do nosso Tempo que foi, que é Romeu Correia, nasceu há 100 anos. Uma personalidade viva, ativa, empenhada em deixar-nos o melhor do seu contributo para a construção de um mundo e de uma vida melhor para todos os Homens, cuja obra literária, a perseverança na luta e na resistência e o exemplo de vida nos impele hoje ao reforço da intransigente defesa dos valores da Liberdade e da Democracia que sempre defendeu e pelas quais sempre lutou.

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