Contemplar uma linha

Nº 1739 - Verão 2017
Publicado em Nacional por: Jorge dos Reis (autor)

A linha da beira baixa entre a Covilhã e Lisboa desenvolve-se, numa grande parte do seu percurso, ao longo do rio Tejo, implantando-se em penhascos e falésias abruptas que parecem deixar resvalar nas águas o intrépido comboio. A locomotiva do tempo do diesel percorre esta linha com um vagar assustado, cautelosamente antecipa cada curva para se emancipar nos longos carris oxidados sobre xisto. O filme que se revela na janela da carruagem organizado na sequência da viagem entre o ponto de origem e o ponto de chegada é vertiginoso mas doce e sereno. São declives plenos de oliveiras, pedras e pedregulhos de granito salpicados na paisagem; as águas lânguidas descendo até ao mar com azeitonas soltas boiando e o reflexo de um céu em constante mudança. Por dentro o paladar ferroviário e o cheiro da máquina que se esfuma no motor que puxa os vagões na perspectiva cronológica da viagem.

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