A Seara Nova em linha

Nº 1740 - Outono 2017
Publicado em Cultura por: Luis Andrade (autor)

A publicação na Internet da primeira série da Seara Nova vai permitir aceder, de forma universal, aos 1604 números que a revista editou entre 1921 e 1984, bem como a mais de mil documentos da sua história.

A colecção integral do quinzenário de doutrina e política ficará disponível para consulta das suas 31 490 páginas quer de forma singela, edição a edição e folha a folha, quer segundo o índice que reúne os 3 200 nomes que subscreveram os textos publicados (que permite a passagem directa das listagens de artigos para as páginas em que foram dados à estampa).

O menu principal do site Seara Nova facultará ainda o programa seareiro, na versão que Raul Proença lhe imprimiu em 1921, bem como as polémicas travadas no periódico, embora, numa primeira fase, esta secção se limite a um lote restrito de controvérsias.

O leitor passará a dispor, igualmente, de um extenso dossier dedicado à revista e à sua história, dividido em quatro grandes secções: documentos, testemunhos, estudos e lugares.

Embora o desígnio não seja o de reunir a totalidade das fontes e da literatura respeitantes à Seara Nova que chegou ao conhecimento da equipa de investigação que elaborou o site, pois nem se pretende constituir o seu repositório metódico nem se visa especificamente a comunidade académica, o conjunto de materiais reunidos na secção “magasin” – no duplo sentido de arrumo geral e de magazine – mostra-se extenso e variado.

Entre os documentos em publicação, merecem destaque o conjunto das separatas, o levantamento dos cadernos e dos livros editados pela Seara Nova, em muitos casos, reproduzidos integralmente, mas sempre expostos na sua capa, folha de rosto e índice, e a compilação ilustrativa, mas variada e numerosa, dos cortes impostos aos seus autores pela Censura.

Por outro lado, os testemunhos transcritos relatam as experiências vividas por vinte e duas das figuras maiores da Seara Nova desde as reuniões e os contactos preparatórios da fundação da revista, como acontece com as evocações de Luís da Câmara Reys, David Ferreira ou João Sarmento Pimentel, até ao período que antecedeu a transição para a Nova Seara Nova, concretizada sob a direcção de Ulpiano Nascimento.

Já a secção dedicada aos estudos procede ao levantamento da literatura que tomou o quinzenário por objecto, sempre que possível com a reprodução integral das monografias e dos artigos indicados. Uma breve antologia dá nota de teses, debates ou apontamentos tidos por particularmente relevantes ou estimulantes para compreensão do teor da publicação.

Por fim, a secção “lugares” inventaria, em sucessivos mapas de Lisboa, as sedes, as tipografias, os armazéns, as livrarias e outros locais associados à geografia urbana do periódico.

As revistas de ideias e cultura

O site Seara Nova integra-se no programa de publicação e estudo de revistas de ideias e cultura patente no endereço electrónico www.ric.slhi.pt, que lhe servirá de portal de acolhimento.

O plano de investigação e de edição em curso parte do pressuposto geral de que as revistas ocupam um lugar central na história cultural e política portuguesa do século XX.

O simples uso corrente do nome e do qualificativo seareiro, só por si, simboliza-o.

Os títulos principais dos periódicos de cultura possibilitaram a definição de correntes de pensamento e de gosto, agregaram os seus defensores, criaram públicos fiéis, definiram movimentos intelectuais e cívicos, deram a conhecer a evolução, por vezes, as metamorfoses, das convicções compartilhadas, tudo isto segundo vozes plurais, registos variados e desenvolvimentos incertos e complexos.

Não só nenhum outro tipo de publicação se assemelha às revistas na capacidade de produzir as representações com que o século se observou e se fez a si próprio como também muitas das edições em livro mais celebradas são constituídas exactamente por recolhas de artigos, mas também de poemas e de narrativas, previamente publicados nestes periódicos.

Raul Proença, António Sérgio e Jaime Cortesão, para nos cingirmos a três das figuras proeminentes na Seara Nova, encarnaram esta determinação corrente e imperiosa de associar o pensamento à sua circunstância, através da direcção e da publicação de órgãos de imprensa, unindo o rigor do pensamento ao vigor dos combates travados em seu nome.

Ao longo das décadas mais recentes, o interesse por estes periódicos e, entre eles, pela Seara Nova, não esmoreceu em momento algum; pelo contrário, a sua evocação tem-se avivado e consta com destaque na generalidade das notícias que referem aqueles que foram seus colaboradores.

O obstáculo que tem impedido que a investigação sobre as revistas de ideias e cultura se eleve à dimensão da importância de que se revestiram está firmado na natureza ingrata destas fontes, de acesso problemático e com teor variado e muito extenso.

É a este propósito que as chamadas humanidades digitais podem dar um contributo significativo, na medida que facultam as condições que permitem disponibilizar as colecções completas dos periódicos, muitas vezes inexistentes nas instituições de referência, ao mesmo tempo que fornecem ferramentas que possibilitam tirar partido da sistematização da informação dos conteúdos publicados. Num plano mais elaborado a sua virtualidade hermenêutica e heurística mostra-se também muito promissora.

Ora, é este obstáculo maior que o programa Revistas de ideias e Cultura procura, em primeiro lugar, dirimir, no caso do acesso às colecções já publicadas em linha, e redefinir, no que respeita à abordagem do seu teor, através da constituição de bases de dados que franqueiam a consulta a partir de oito índices – autores singulares, autores colectivos, conceitos, assuntos, nomes singulares citados, nomes colectivos citados, obras citadas, nomes geográficos – susceptíveis de serem cruzados entre si.

A extensão invulgar da colecção da Seara Nova levou a que se encontrem elaborados unicamente os índice de autores, ainda que todos os requisitos indispensáveis para se vir a completar a base de dados, de acordo com o padrão indicado, tenham ficado salvaguardados.

É ainda de sublinhar que os índices das revistas já disponíveis podem ser consultados no seu conjunto, no site geral, título a título ou de forma agregada, de acordo com as escolhas feitas por cada leitor.

Cultura viva

As apreciações gerais que justificam o programa de investigação e de publicação, acima sucintamente referidas, redobram de pertinência quando o seu objecto é constituído pelo título que deu nome e voz ao combate seareiro.

Como é reconhecido comummente, o pensamento democrático português do século XX confunde-se, a diferentes títulos, com a história do quinzenário congeminado por Raul Proença e Jaime Cortesão, o que confere ao seu legado não só um valor cultural ímpar mas também uma grandeza cívica, feita de coragem e de grande tenacidade, exemplar.

As fotografias, muito conhecidas, que retratam o grupo fundador da Sociedade de Publicidade Seara Nova acabaram, mesmo, por sintetizar o espírito de abertura que presidiu à publicação, que soube chamar às suas páginas a cultura viva do seu tempo, a ponto de poder afirmar-se que se converteu na tribuna natural e, muitas vezes, única de todos aqueles que cultivaram a reflexão e a crítica livres.

Se a concretização do desiderato de dar expressão pública à sensibilidade e ao saber democráticos, que define o fundo doutrinário da publicação, representa só por si um sucesso, a sua perpetuação ao logo de mais de meio século configura um feito inequivocamente notável. Sempre na oposição, à velha República e aos seus vícios, aos interesses instalados e, fundamentalmente, à ditadura salazarista, a Seara resistiu com galhardia à adversidade política, desde logo ao exílio precoce dos sus mentores, à inviabilidade financeira, patente numa tesouraria cronicamente deficitária, às suas próprias crises internas, nomeadamente àquelas que tiveram lugar nos finais das décadas de vinte, de trinta e de cinquenta do século passado.

A intransigência, firmeza e a própria capacidade de renovar-se patenteadas pela revista, ao integrar as novas gerações de intelectuais, ou, mesmo, transmitir-lhes a redacção, como se verificou após as eleições presidenciais de 1958, ficou a dever-se, em primeiro lugar, a Luís da Câmara Reys, invariavelmente acusado de má gestão e criticado pelas decisões ingratas intrínsecas ao desempenho do cargo.

Ora, o director, por excelência, da empresa e da revista tinha, a este propósito, sabedoria própria, inspirada na máxima “não sejam prudentes”, de Anatole France, que particularizou por ocasião de uma das muitas efemérides da publicação: “se a Seara tivesse sido administrada com prudência, há muito teria deixado de existir, ou de ter uma razão de existir” (n.º 1008, p. 225).

Como é sabido, a revista dirigida por Câmara Reys vem na sequência de A Águia (1910-1932) e do movimento de intelectuais que a si próprio se intitulou Renascença Portuguesa, sediado no Porto, mas com núcleos espalhados pelo país e pelo Brasil. Uma curiosa e conhecida expressão de Teixeira de Pascoaes segundo a qual A Águia voou para Lisboa e pousou na Seara ilustra-o eloquentemente.

Como o site de A Águia já se encontra publicado no portal Revistas de Ideias e Cultura e as duas revistas ficarão lado a lado, o confronto sumário entre estes dois títulos maiores do republicanismo do primeiro quartel do século, no sentido de aclarar as origens e a especificidade da revista de Raul Proença, justifica-se quer no que respeita às coincidências quer às diferenças.

Em termos gerais, a criação da Seara representa a realização do programa proposto para a Renascença Portuguesa por Proença e Sérgio, que tinha sido preterido pela orientação que Teixeira de Pascoaes imprimira à segunda série de A Águia durante o período de 1911 a 1916. Ao núcleo de Lisboa juntaram-se, entretanto, algumas das figuras mais relevantes dos grupos renascentistas do Porto, com destaque para Jaime Cortesão, e de Coimbra, nomeadamente Augusto Casimiro.

As convicções fundamentais dos movimentos conduzidos pelas duas revistas assemelharam-se no que respeita ao papel decisivo atribuído à divulgação cultural na reforma substantiva da vida social e política. A obra que uma e outra realizaram, vertida em centenas de edições criteriosas, em universidades populares e livres, em conferências e outras iniciativas culturais, foi de vulto e deixou marca indelével na cultura portuguesa do século XX.

A divergência deu-se em dois planos fundamentais. Por um lado, a Renascença Portuguesa enveredou por um programa dirigido para o reencontro dos portugueses com as suas supostas origens, índole e missão, à luz de uma revelação de fundo mítico, enquanto a Seara conferiu primazia à necessidade de colocar os concidadãos e a vida pública a par dos padrões de racionalidade europeus e contemporâneos. Por outro lado, Pascoaes e os que lhe foram próximos tenderam a valorizar os registos poéticos e literários enquanto Sérgio e Proença procuraram ater a sua revista ao plano conceptual da crítica e da doutrina, sem, contudo, descurarem as letras e as artes.

Nestas diferenças entre os dois programas é possível vislumbrar o papel muito relevante que a Seara desempenhou, de seguida, na defesa da racionalidade moderna e contemporânea, incluindo da racionalidade científica, face a uma mentalidade dominante arcaica, capaz de declarar a falência do conhecimento positivo pela boca do Dr. Júlio Dantas, precisamente o presidente da Academia das Ciências. Bento de Jesus Caraça repudiou tamanho desaforo em artigo destinado a publicação na revista, mas integralmente proibido pela Censura.

Excepção feita aos anos republicanos da revista, que são aqueles que têm merecido maior atenção por parte dos estudiosos, o conhecimento metódico da evolução da Seara mostra-se muito limitado, mesmo no que respeita aos períodos em que se revigorou com novos redactores, regularidade de edição, tiragens relativamente elevadas e forte movimento editorial de livros, como aconteceu no segundo lustro dos anos sessenta e no primeiro dos anos setenta. Tratou-se, aliás, de um período de renovação também programática, capaz de conjugar a orientação tradicional da revista com uma presença progressivamente mais vincada de perspectivas que iam buscar às leituras marxistas a sua fonte de inspiração.

Porém, a Seara Nova em linha e as novas condições que proporciona para o conhecimento do seu legado não se dirigem, em primeiro lugar, à comunidade académica, mas antes a todos aqueles que procuram, nas páginas da revista, uma fonte de inspiração pessoal e cívica, seguindo, de algum modo, a lição seareira de unir a memória, o saber e o bem comum.

Um projecto comum e em aberto

Por fim, mas, a seu modo, em primeiro lugar, é de realçar que o site a apresentar no início de Dezembro se deve à confiança que os responsáveis actuais pela Seara Nova, nomeadamente o seu director, Dr. Levy Baptista, depositaram na equipa que o elaborou, ao autorizarem a sua publicação e ao possibilitarem a reprodução dos documentos do arquivo editorial da revista e da empresa.

O Seminário Livre de História das Ideias, com quem foi celebrado um protocolo de colaboração, não pode deixar de sentir-se profundamente agradecido pela oportunidade que lhe foi proporcionada de estudar e reproduzir o título que constitui a coluna dorsal do pensamento inconformista no nosso país ao longo do século XX.

Estamos, porém, face a um trabalho ainda em aberto.

Em primeiro lugar, o inventário dos autores que publicaram na Seara Nova, patente no respectivo índice, pode ser melhorado, nomeadamente no que respeita à identificação de pseudónimos e de iniciais. Trata-se de uma tarefa fundamental e sempre difícil, mas que pode ser cumprida progressivamente desde que os seareiros e quem lhes foi próximo prestem a sua colaboração (ver nota).

Em segundo lugar, justifica-se avançar na análise sistemática do teor de cada um dos artigos publicados com a finalidade de se elaborarem os índices de conceitos, assuntos, nomes e obras citadas e lugares geográficos, apesar de se tratar de um empreendimento extenso e demorado que requer meios significativos.

Em terceiro lugar, é necessário confessar que o conhecimento que se tem dos arquivos editoriais da revista e da empresa é muito limitado. Por exemplo, no que respeita à documentação sobre a produção da revista, em que se inclui, a que respeita à sujeição à censura, conhecem-se unicamente os dossiers posteriores a 1960, pelo que o estudo – e o tratamento arquivístico – do conjunto da documentação se revela uma tarefa de grande acuidade e pertinência.

Fazemos, por último, votos que a Seara Nova em linha se mostre à altura das expectativas dos seareiros e de todos aqueles que a consultarem, do mesmo modo que esperamos que a colaboração agora encetada se possa consolidar e alargar, nomeadamente no quadro preparatório das comemorações do centenário da revista de doutrina e crítica com que aprendemos a conquistar a liberdade.

 

Apelo aos leitores


Uma das vantagens da edição electrónica relativamente à publicação em papel consiste na possibilidade de rever e de aditar os sites, tanto com a finalidade de corrigir imprecisões quanto de actualizar a informação.

Por este motivo, cada site de Revistas de Ideias e Cultura tem não só um editor mas também um curador, que concebe a sua missão como um trabalho de aperfeiçoamento a realizar conjuntamente com os restantes interessados pelo título publicado.

No caso do site Seara Nova, a ajuda que, agora, se solicita a cada um dos seus leitores visa, antes de mais, melhorar o índice de autores.

Embora a pesquisa tenha sido aturada e contenha informação inédita, vimos pedir a vossa colaboração no sentido de:

- identificar os pseudónimos que não foram reconhecidos;

- identificar os autores de artigos assinados com iniciais;

- corrigir ou acrescentar algum dado – actividade, ano de nascimento, ano de morte – que possa estar equivocado ou omisso.

Como a possibilidade de definir o universo de colaboradores e de atribuir a autoria dos artigos está dependente do rigor posto na identificação dos pseudónimos e das iniciais, todos os contributos são fundamentais.

Os contributos, mas também as críticas e as sugestões, podem ser remetidos para slhi@fcsh.unl.pt.

Muito obrigado.
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