Revolução de Outubro 1917 no Ecrã

Nº 1740 - Outono 2017
Publicado em Cultura por: Cinemateca Portuguesa (autor)

Por ocasião do centenário da Revolução de Outubro, um dos acontecimentos históricos mais marcantes do século XX e aquele que teve as mais vastas consequências, a Cinemateca propôs ao longo de três meses (setembro, outubro e novembro) um ciclo sobre a revolução comunista de 1917, através do qual se pretende percorrer as diversas formas como a Revolução Bolchevista e a guerra civil, que se lhe seguiu e que durou cerca de cinco anos, foram representadas no cinema, tanto na União Soviética como em outros países.

“Aquilo que passou pelo cinema e foi por ele marcado, já não pode entrar noutro sítio” – Jean-Luc Godard. Esta frase, extraída das Histoires(s) du Cinéma, aplica- se particularmente bem à História, quando esta “entra” para o cinema. É o que se passa com acontecimentos imediatamente anteriores à invenção do cinema e que este anexa (a Guerra da Secessão ou a “conquista do Oeste” americano) e, de modo ainda mais marcante, com os acontecimentos que tiveram lugar depois da invenção do cinema, que é uma grande máquina de fabricar mitos (no sentido de alegoria que evoca factos passados ou de relação idealizada destes factos, que passam a ter outro sentido). A nossa apreensão do nacional-socialismo, assim como a do comunismo, para darmos dois exemplos irrecusáveis, foi marcada para sempre pela representação que tiveram no cinema, seja este de ficção, de propaganda ou documental.

O grande cinema soviético do período mudo, o cinema revolucionário que nasce da Revolução de Outubro, não é realista, não descreve os factos: dá-lhes a forma de alegorias, idealiza-os, sintetiza-os. A prova mais marcante disto é que poucos espectadores se lembram de que o mais célebre filme soviético de sempre, O Couraçado Potemkine, não aborda a revolução de 1917 e sim a de 1905. No entanto, o filme de Eisenstein passou a ser o símbolo absoluto da revolução de 1917. Ao mostrar uma revolução, mas acabar por representar outra, devido à perceção dos espectadores, O Couraçado Potemkine tornou- se uma das mais famosas metonímias históricas do cinema (“figura de estilo que consiste em designar um objeto, uma realidade por meio de um termo referente a outro objeto ou a outra realidade que se encontram ligados aos primeiros por uma relação lógica”, como se lê no nosso Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa). Em Outubro, do mesmo Eisenstein, a tomada do Palácio de Inverno também é uma alegoria, uma versão mitológica dos factos. Por isto, este Ciclo organizado pela Cinemateca por ocasião do centenário do acontecimento histórico mais marcante do século XX e aquele que teve as mais vastas consequências – a revolução comunista de 1917 – não é um Ciclo sobre o cinema soviético, nascido desta revolução, que foi durante decénios um dos seus temas centrais, através dos gelos e degelos do regime.

O conceito do Ciclo “1917 no Ecrã” consiste em percorrer as diversas formas em que a Revolução Bolchevista e a guerra civil que se lhe seguiu e que durou cerca de cinco anos foram representadas no cinema, tanto na União Soviética como em outros países. Foi-o de diversas maneiras: como um acontecimento presente, como um momento de História (Lenine surgiu muito cedo como personagem de ficção), mas também como um simples pano de fundo para aventuras romanescas. No nosso programa, as três exceções que fogem a esta regra são O Couraçado Potemkine, pelos motivos expostos acima, As Aventuras Extraordinárias de Mr. West no País dos Bolchevistas, por ser um filme sobre a imagem do regime comunista no estrangeiro (usando as armas do adversário, para satiriza-lo) e A Sexta Parte do Mundo, por ser uma síntese de dez anos de resultados da revolução. Por conseguinte, os quinze programas que formaram a primeira parte deste Ciclo em setembro (vinte e oito outros serão apresentados em outubro e novembro) ilustram as diversas maneiras em que a Revolução e a guerra civil foram mostradas.

Reunimos clássicos dos grandes nomes do cinema mudo soviético (Sergei Eisenstein, Dziga Vertov, Vsevolod Pudovkine, Aleksandr Dovjenko) e uma obra-prima pouco conhecida do mesmo período, de Nikolai Chenguelaia; um exemplo de um ilustre cineasta do período czarista (Evgueni Bauer), que aborda a revolução de Fevereiro; dois clássicos soviéticos dos anos trinta, em que o cinema de poesia do período mudo é substituído pela prosa narrativa (Chapaev e a trilogia de Maxim) e cujas narrativas se estendem por um período de vários anos. Mas também incluímos filmes em que a Revolução é um simples pano de fundo para aventuras sentimentais e exóticas (como Knight Without Armour), além de Dr. Jivago, outro exemplo da representação da Revolução Bolchevique e das suas consequências através de um grande espetáculo.

Chamamos a atenção para o facto de o filme mais mítico O Coraçado Potemkine ter sido apresentado em duas versões: a “tradicional”, muda e com o acréscimo de música de Chostakovich; e a rara e insólita “versão alemã” de 1930, com a música original de Edmund Meisel, a supressão dos intertítulos e o acréscimo de diálogos falados em alemão.

Os filmes não foram deliberadamente programados em ordem cronológica, mas de modo a ilustrarem as maneiras muito diferentes como o tema foi tratado. O espectador que acompanhar todo o Ciclo não ficará a saber mais do que já sabe sobre a Revolução Bolchevique, mas terá certamente uma noção mais clara da maneira como ela foi representada em 90 anos de cinema.

Em setembro oferecemos ao público da Cinemateca Asneobichainie Prikliuchenia Mistera Vesta Vb Strane Bolshevikov (As Aventuras Extraordinárias de Mr. West no País dos Bolchevistas), de Lev Kulechov, com Boris Barnet, Vladimir Vogel, Pyotr Galadzhev, Anatoli Gorchilin. URSS, 1924; Bronenosets Potiomkine (O Couraçado Potemkine), de Sergei M. Eisenstein, com Aleksander Antonov, Grigori Alexandrov, Vladimir Barsky. URSS, 1925; Oktiabr (Outubro), de Sergei M. Eisenstein, com Vassili Nikandrov, Nikolai Boris Lianov. URSS, 1927; Dr Zhivago (Dr. Jivago), de David Lean, com Omar Shariff, Julie Christie, Geraldine Chaplin, Rod Steiger, Tom Courtenay, Alec Guiness. Estados Unidos, 1965; Padenie Dinasty Romanovicht (A Queda da Dinastia Romanov), de Esther Chub. URSS, 1927; Revolucioner (O Revolucionário), de Evgueni Bauer, com Ivan Perestriani, Vladimir Strijevsky, Zoia Barancevich. Rússia, 1917; Chapaiev, de Sergei Vassiliev, Guiorgi Vassiliev, com Boris Babotchkine, Boris Blinov, Varvara Missinkova. URSS, 1934; Dvadtsat Shest Komissarov (Os 26 Comissários de Baku), de Nikolai Chenguelaia, com K. Gasanov, Baba-Zade, Hairi Emir-Zade, Alaverdi Melikov. União Soviética, 1932; Knight Without Armour (Cavaleiro sem Armas), de Jacques Feyder, com Marlene Dietrich, Robert Donat, Irene Vanburgh, Herbert Lomas. Reino Unido, 1937; Arsenal, de Aleksandr Dovjenko, com Semen Svasenko, D. Erdman, Sergei Petrov. URSS, 1929; Mat (A Mãe), de Vsevolod Pudovkine, com Vera Baranovskaia, Nikolai Batalov, Anna Zemcova. URSS, 1925; British Agent, de Michael Curtiz, com Leslie Howard, Kay Francis, Cesar Romero. Estados Unidos, 1934; Younest Maxima (A Juventude de Máximo), de Grigori Kozintsev, Illya Trauberg, com Boris Chirkov, Valentina Kibardina, Aleksandr Kulabov, Mikhail Tarkhanov. URSS, 1935; Vosrachtchenié Maxima (O Regresso de Máximo), de Grigori Kozintsev, Illya Trauberg, com Boris Chirkov, Valentina Kibardina, Aleksandre Kuznetsov, Aleksandr Chistyakov. URSS, 1937.

Segunda etapa

Em outubro, a segunda etapa do Ciclo “1917 no Ecrã”, cuja programação foi baseada no seguinte princípio: mostrar filmes de diversas épocas e países, que tenham alguma relação com a revolução bolchevique de Outubro de 1917 e a guerra civil que se lhe seguiu. Como sucede com todos os acontecimentos históricos recuperados pelo cinema, a Revolução de Outubro teve grande parte da sua imagem, do seu mito, forjado pelo cinema, mas isto não se fez de maneira homogénea: houve filmes que forjaram este mito através da representação dos seus acontecimentos e outros que o recuperaram para fins totalmente diversos, casos respetivamente de Outubro, de Sergei Eisenstein, e Reds, de Warren Beatty, que estão programados no mesmo dia, quase num double bill, de maneira a cotejar as duas visões.

Na União Soviética, os mitos e os modos de representação da revolução e da guerra civil evoluíram ao longo do tempo, à medida que estes acontecimentos se afastavam e novas gerações, que não os tinham vivido, chegavam à idade adulta e à realização de filmes. Podemos observar esta evolução em oito filmes soviéticos realizados nos anos trinta, cinquenta e sessenta. Os primeiros, quando a revolução ainda era um acontecimento recente e vivo (O Homem da Espingarda e Os Marinheiros do Kronstadt); dos anos cinquenta, O Quadragésimo Primeiro, que retoma um tema abordado pelo cinema soviético no período mudo, mas também dois filmes que propõem uma nova leitura de conhecidos elementos da representação da Revolução, Pavel Korghagin e O Vento; e também filmes realizados nos anos sessenta, mas proibidos durante vinte anos, como O Comissário e O Começo de uma Nova Era, além de uma obra de Artavazd Pelechian.

Os sete filmes não soviéticos que escolhemos abordam de modo bastante diverso os acontecimentos históricos que descrevem: além de Reds, em que a Revolução é um pano de fundo para os amores dos protagonistas, propomos dois outros clássicos do período mudo, que têm este mesmo enfoque: The Volga Boatman, de Cecil B. DeMille, e Die Liebe Der Jeanne Ney, de Georg Wilhelm Pabst. Propomos ainda um filme realizado na Itália de Mussolini por Goffredo Alessandrini, o díptico formado por Addio Kira e Noi Vivi, cujo tom oscila entre o melodrama e a propaganda política, e também programamos dois filmes alemães que são abertamente de propaganda, mas vêm de polos políticos opostos: Weisse Sklaven, realizado no período nazi, e Das Lied Der Matrosen, uma produção da Alemanha do Leste. Da Finlândia, Doverie/Luottamus, uma coprodução com a União Soviética, fortemente marcada pela estética soviética da representação da Revolução. E a fechar esta segunda etapa de “1917 no Ecrã”, a segunda passagem de As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolchevistas, que inaugurou o Ciclo em setembro, porque este também é, parcialmente, um Ciclo sobre o grande cinema clássico soviético, que nasceu da Revolução de Outubro. Dos 17 filmes apresentados, 11 são inéditos na Cinemateca.

São estes os filmes de outubro - Veter (O Vento), de Aleksandr Alov, Vladimir Naumov, com Eduard Bredun, Tamara Loginova, Elza Lezhdey. URSS, 1959; Sorok Pervyi (O Quadragésimo Primeiro), de Grigori Chukhrai, com Isolda Uzvickaja, Oleg Strizenov, Nicolai Kriuciv. URSS, 1957; Oktiabr (Outubro), de Sergei Eisenstein, com Boris Livanov, Nikolay Popov, Vasili Nikandrov. URSS, 1927; Reds, de Warren Beatty, com Warren Beatty, Diane Keaton, Edward Herrmann, Jerzy Kosinski, Jack Nicholson. Estados Unidos, 1981; Komissar (O Comissário), de Aleksandr Askoldov, com Nonna Mordyukova, Rolan Bykov, Raisa Nedashkovskaya. URSS, 1967; Chelovek s Ruzhyom (O Homem da Espingarda), de Sergei Yutkevitch, com Boris Tenin, Nikolay Cherkasov, Maksim Shtraukh, Mikheil Gelovani. URSS, 1938; Pavel Korghagin, de Alexandr Alov, Vladimir Naumov, com Vassily Levonoy, Elza Lezhdey, Tatiana Stradina. URSS, 1957; Skizbe (O Começo), de Artavazd Pelechian. URSS, 1967; Nachalo Nevedomogo Veka (O Começo de uma Era Desconhecida), de Larissa Chepitko, Andrei Smirnov, com Leonid Kulagin, Sergei Volf, Georgiy Burkov. URSS, 1967; Noi Vivi (Nós, os Vivos), de Goffredo Alessandrini, com Alida Valli, Rossano Brazzi, Fosco Giachetti. Itália, 1942.

Fecharemos, como já foi escrito este panorama em novembro, ainda sem calendarização das sessões com os seguintes filmes: Optimiticheskaya Tragedya (A Tragédia Otimista), de Samson Samsonov, com Boris Andreyev, Margarita Volodina, Vyacheslav Tikhonov. URSS, 1963; Interventsyia (Intervenção), de Genaddi Poloka, com Vladimir Vissotsky, Julia Burigina, Yuri Tolubeev, Marlen Khutsiev. URSS, 1968; Gori, Gori Moya Sveda (Brilha, Brilha, Minha Estrela), de Aleksandr Mitta, com Oleg Tabakov, Elena Proklova, Leonid Kuraviev. URSS, 1970; The World and The Flesh (O Tigre do Mar Negro), de John Cromwell, com George Bancroft, Miriam Hopkins, Alan Mowbray. Estados Unidos, 1932; Täällä Pohjantähden Alla (Aqui, Além da Estrela Polar), de Edvin Laine, com Risto Taulo, Aarno Sulkanen, Titta Karakorpi. Finlândia, 1968; Tulipä (Coração de Fogo), de Pekka Lehto, Pirjo Hoonsasalo, com Askro Sarkola, Rea Mauranen, Kari Frank. Finlândia, 1980¨; Mommilan Veriteot 1917 (O Banho de Sangue de Mommilan em 1917), de Jotaarkka Pennanen, com Reino Kalliolahti, Hannu Kahakorpi, Eero Kosteikko. Finlândia, 1973; Muisto - Ssenäisen Vuosien Ensimmästen Kertomus (Memória – História dos Primeiros Anos da Finlândia), de Peter von Bagh. Finlândia, 1987; Rotmord (Homicídio Vermelho), de Peter Zadek, com Gerd Baltus, Siegfried Wischnewsky, Werner Dahms. República Federal da Alemanha, 1969; Shestaya Chast Mira (A Sexta Parte do Mundo), de Dziga Vertov. União Soviética, 1926.

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