Cinema: Uma actriz inesquecível

Nº 1740 - Outono 2017
Publicado em Cultura por: Dulce Rebelo (autor)

Jeanne Moreau, a mítica vedeta do cinema francês da “nouvelle vague”, deixou-nos a 31 de Julho de 2017.
Evocações e homenagens têm sido numerosas em vários países, pois ela representa o símbolo europeu do cinema dos anos 50, 60, 70.
A sua vocação despertou cedo, aos 16 anos, quando assistiu à exibição da peça “Antígona”.
Rebelde e insolente reage à proibição do pai quando lhe declarou o seu objectivo de vida, e às escondidas frequenta o conservatório.
Representou para Jean Vilar quando este inaugurou os espetáculos de Avignon.
Reconhecem-lhe inteligência e talento, trabalho e conhecimento, assim como grande paixão ao representar diferentes personagens.
Estamos nos anos do final da 2.ª Grande Guerra Mundial e Jeanne vive a alegria da libertação do país, tal como a sua libertação pessoal.
Aos 20 anos está na “Comédie Française”, onde progressivamente lhe vão atribuindo papéis cada vez mais importantes.
Após quatro anos no Teatro Moliére, a jovem actriz parte para outros palcos.
Apesar dos seus êxitos no teatro, Jeanne Moreau só tarde entrou no cinema já que os grandes realizadores não a consideravam fotogénica, senhora de um rosto “irregular”. A actriz não correspondia fisicamente aos cânones de beleza da época onde era expoente máximo Brigitte Bardot.
É o jovem cineasta Louis Malle que vai quebrar este impasse estético rodando com ela dois filmes “Ascenseur pour l`Échafaud” e “Les Amants” de 1958. Este último filme no Festival de Veneza desse mesmo ano valeu a Jeanne Moreau o Prémio de Interpretação.
E a actriz nunca mais parou. Livre e independente reagindo contra as convenções, atravessou a vida em turbilhão, marcada por muitos amores, muitas festas, muitos filmes, muitas mágoas, mantendo porém a mesma paixão intensa na arte de representar.
Em 1962 rodou com François Truffaut «Jules e Jim», um filme de referência. A história um tanto escandalosa para a época narra a vida duma mulher que ama dois homens sem se decidir por qualquer deles. Jeanne interpreta a personagem Catherine entre os seus dois amores Jean (Henri Serre) e Jules (Oskar Werner).
Embora o filme se encaminhe para um fim trágico, J. Moreau (Catarina) é uma explosão de alegria – salta, corre, dança e canta com uma suave voz rouca, cheia de modelações sensuais “Le Tourbollon de la Vie”.
Em 1995, como presidente do júri do Festival de Cannes, ouvirá esta canção entoada pela jovem Vanessa Paradis. Comovidíssima, com lágrimas nos olhos, a presidente levanta-se do seu lugar para trautear com a cantora a célebre canção que a tocou para toda a vida.
Em 1965 Louis Malle vai juntar duas artistas famosas Brigitte Bardot e Jeanne Moreau no filme “Viva Maria”, passado no México.
Tratava-se de um grande desafio pois de certo modo as actrizes eram rivais. No entanto as duas parceiras entenderam-se bem e o filme alcançou um estrondoso sucesso junto do público.
Brigitte Bardot, recordando essa ocasião, diz que entre as duas havia uma enorme cumplicidade durante as filmagens e rematou: “Hoje guardo no coração a lembrança duma actriz fabulosa, duma mulher brilhante e inteligente. Nunca a esquecerei. Ela faz parte da minha vida e igualmente das nossas vidas”.
Jeanne Moreau trabalhou com muitos outros cineastas: Orson Welles, Luis Buñuel, Antonioni, Tony Richard, Manuel Oliveira.
Ao longo do tempo esta actriz talentosa tornou-se numa verdadeira instituição do cinema francês.
Nos últimos anos prosseguiu a sua carreira na televisão dirigida pela realizadora Josée Dayan que tinha enorme admiração por Jeanne. Juntas rodaram dez filmes. À actriz deprimida nos últimos tempos, a cineasta prometeu atribuir-lhe um novo papel, pois ela só se sentia bem a representar.
Em 2012 interpretou o papel de superiora dum convento na série televisiva “ Os Miseráveis”.
O público português teve ainda ocasião de a ver em 2012 no filme de Manuel Oliveira “O Gebo e a Sombra” adaptação da peça de Raúl Brandão, com o mesmo nome, onde interpreta a personagem de Candidinha, uma mulher velha e pobre enraivecida contra o mundo dos poderosos e que depende da esmola alheia.
Jeanne Moreau perdurará na nossa memória como uma excelente actriz e podemos sempre revê-la na interpretação de diversas personagens em filmes magníficos.

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