Notas de Leitura: O caso da Cooperativa de Consumo Piedense "Memórias, Sociabilidades e Resistências" de Dulce Simões

Nº 1740 - Outono 2017
Publicado em Cultura por: H. V. (autor)

A autora, que na Revista História n.º 95, de Março de 2007, abordava já a temática relacionada com a Piedense no seu artigo “Memória de uma Biblioteca Popular de Resistência” volta ao tema, agora em edição da Caleidoscópio, com novo trabalho de investigação intitulado: “Memórias, Sociabilidades e Resistências. O caso da Cooperativa de Consumo Piedense”.

Fundada em 4 de Março de 1893, a Cooperativa é-nos apresentada neste trabalho de uma forma singular recorrendo a testemunhos vivos – entrevistas – onde memórias e opiniões se entrelaçam, criando uma imagem polícroma de uma obra iminentemente social e cultural de cariz profundamente popular inserida na luta política do seu tempo, nomeadamente durante o período da ditadura fascista.

A obra integra ainda apontamentos diversos de caráter social, cultural e político de relevante importância para compreender o fenómeno Piedense e, ao mesmo tempo, para nos colocar perante um painel de acontecimentos, de histórias pessoais e coletivas que tanto influenciaram como foram influenciadas pela existência da Cooperativa.

De não menos relevante importância é o facto de esta obra se iniciar pelo presente, presente a que a Piedense não sobreviveu.

O mundo mudou, a sociedade mudou e, mais uma vez, através dos actores da história, a autora apresenta-nos um quadro complexo de posições diversas, controversas mesmo, que, por vezes, questionam mesmo a viabilidade, hoje, de erguer com sucesso e seguindo os princípios do cooperativismo, um projeto cooperativo.

Da esperança que alguns acalentavam: “Eu sou um optimista em relação à Cooperativa, em relação ao cooperativismo, em relação ao associativismo e em relação à vida. Eu acho que a vida é evolução não é estagnação, não é retrógrada, há sempre um processo, há lacunas na sociedade, na evolução da própria sociedade que motivam estas dificuldades. A Cooperativa vive uma dificuldade, de há uns anos a esta parte, mas há-de ultrapassá-la, é a minha opinião. (…) As pessoas vão acabar por ver que a vida não são as quatro paredes, nem são aquilo que os outros oferecem, tem que ser aquilo que nós procuramos e isso é a Cooperativa” (Mário Araújo), pág. 39, à desesperança de outros: “Eu acho que o cooperativismo tem os dias contados, eu não sei se a privatização alguma vez chegará à Cooperativa. Hoje em dia a Cooperativa que existe não tem o valor que tinha, repare, as pessoas hoje em dia vão-se aviar à Cooperativa como podem ir a outro supermercado qualquer. Ainda é capaz de haver sócios que vão à Cooperativa porque é uma cooperativa, eu confesso, nós aqui é muito raro ir à Cooperativa comprar. Eu francamente não vejo o movimento cooperativista com grande futuro cá em Portugal” (José Vidal), pág 31. Infelizmente confirmou-se a desesperança destes. Mas…a Cooperativa continua! “Se eu ganhei um pouquinho de abrir os olhos, se ganhei um pouquinho de sistema cultural, se ganhei um bocadinho de tudo, foi dentro da Cooperativa” (José da Costa), pág. 196.

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