Factos & Documentos

Nº 1740 - Outono 2017
Publicado em Factos e Documentos por: Revista Seara Nova (autor)

Falta de vergonha

“Digamos que é preciso ter topete, falta de vergonha, descaramento. Depois de cinco anos (2011-15) em que o investimento público foi reduzido em 40%, em que houve cortes salariais nos funcionários públicos e nos pensionistas, em que foram fechados inúmeros serviços do Estado por todo o país (tribunais, lojas do cidadão, centros de saúde, etc, etc), em que se procedeu à diminuição brutal dos apoios públicos às famílias, em que houve uma ofensiva sem precedentes contra o Estado social, em que existiu sistematicamente um discurso culpabilizador de tudo o que fosse público como razão última para a crise, eis que todos os áugures ou arúspices, pitonisas e cassandras do país, que defenderam, apoiaram, estimularam, aplaudiram e acicataram estas opções e este discurso, dão uma volta de 180 graus e surgem a defender valentemente o Estado e as funções que desempenha, sobretudo de soberania e defesa. (...) A direita, melhor, esta direita encabeçada pela actual direcção do PSD, utilizou o Estado como saco de boxe durante cinco anos. Que agora venha clamar contra o enfraquecimento do Estado para atender a todas as suas responsabilidades só não mata de vergonha porque ninguém morre de vergonha”.

Nicolau Santos

Expresso, 7 de Julho de 2017

 

Declarações indecorosas

“Numa entrevista concedida ao Expresso da semana passada, e cujo objetivo inconfessado parece ter sido o de promover o seu escritório de advogados, a PLMJ, Diogo Perestrelo, o novo presidente da Assembleia Geral da TAP nomeado pelo Estado, faz declarações indecorosas sobre as enormes vantagens para o país das privatizações levadas a cabo pelo governo de Coelho/Portas, elogiando o papel da troika na imposição dessas privatizações”.

António Pedro Vasconcelos

Expresso, 15 de Julho de 2017

 

Discurso histérico

“Sobre a ausência ou a rarefacção de alguns géneros jornalísticos tradicionais, ergueu-se a opinião e o comentário políticos, uma multidão de gente que transita da esfera política para o jornalismo e vice-versa, e começa o dia no jornal, passa à tarde pela rádio e está à noite na televisão. Este sistema conduz ao discurso histérico e à ausência de diversidade intelectual, muitas vezes confundido com a falta de pluralismo político, mas mais grave do que este porque está muito mais naturalizado e dissimulado. E é, além disso, responsável por uma esterilização da esfera pública mediática”.

António Guerreiro

Público, 21 de Julho de 2017

 

Venezuela I

“Para compreendermos por que provavelmente não haverá saída não violenta para a crise da Venezuela temos de saber o que está em causa no plano geoestratégico global. O que está em causa são as maiores reservas de petróleo do mundo existentes na Venezuela. Para os EUA, é crucial para o seu domínio global manter o controlo das reservas de petróleo do mundo. Qualquer país, por mais democrático, que tenha este recurso estratégico e não o torne acessível às multinacionais petrolíferas, na maioria norte-americanas, põe-se na mira de uma intervenção imperial. A ameaça à segurança nacional, de que fala o Presidente dos EUA, não está sequer apenas no acesso ao petróleo, está sobretudo no facto de o comércio mundial do petróleo ser denominado em dólares, o verdadeiro núcleo do poder dos EUA, já que nenhum outro país tem o privilégio de imprimir as notas que bem entender sem isso afetar significativamente o seu valor monetário. Foi por esta razão que o Iraque foi invadido e o Médio Oriente e a Líbia arrasados (neste último caso, com a cumplicidade ativa da França de Sarkozy)”.

Boaventura Sousa Santos

Público, 29 de Julho de 2017

 

Princípios e valores

“Quando se perdem princípios e valores perde-se a credibilidade e o direito a merecer o respeito de outros, mesmo quando de nós discordam. (…) A visão dos acontecimentos que nos impõem é, sistematicamente, não a que corresponde aos factos, mas aquela que a artilharia de condicionamento ideológico dos centros de difusão do imperialismo decretam que seja fabricada. (…) Aí os temos, por junto, embevecidos com a farsa plebiscitária na Venezuela mas silenciando o boicote terrorista da votação da Constituinte; aí os temos ciosos da intocabilidade da liberdade de imprensa mas mudos e quedos aquando da destruição pela NATO da estação de televisão jugoslava; aí os temos clamando pelo carácter sagrado dos Parlamentos mas revivendo com gáudio o bombardeamento do Parlamento Russo em 1993; aí os vimos exultando com a Primavera Árabe para justificarem a destruição do Estado Líbio. Todos iludindo os interesses de classe, objectivos socioeconómicos e estratégias de dominação em presença no plano internacional. Por mais que se disfarcem há sempre uma pontinha do rabo que os denuncia. Sem que nunca lhes pese na consciência nem ninguém os responsabilize pelo que, do Chile em 1973 à actual tragédia dos refugiados, é obra directa da conspiração e agressões do imperialismo”.

Jorge Cordeiro

Diário de Notícias, 4 de Agosto de 2017

 

Patranha

Fica assim a saber-se que na mão dos 25 mais ricos se concentra 10% do PIB nacional, ou que os três do topo detêm o equivalente a 14 milhões de salários mínimos nacionais. (…) A patranha de Cavaco Silva, para ornamentar as criminosas privatizações e extorquir uns cobres aos que tendo pouco viram esfumar esse pouco que tinham no jogo da bolsa, parece ter os dias contados. (…) E à pergunta, em jeito de afirmação, de Almeida Garrett sobre a quantidade de pobres que são necessários para produzir um rico, só se pode responder com a determinação de romper com a ordem dominante para assegurar justiça social”.

Jorge Cordeiro

Diário de Notícias, 11 de Agosto de 2017

 

Deriva populista

“Convém lembrar que este presidente americano tem muitos admiradores pelo mundo, incluindo em Portugal. A partir de agora, ficou claro ao lado de quem marcham esses apoiantes. Já não há dúvidas, podemos incluir em definitivo o Governo federal americano na deriva populista do século XXI, com contornos nacionalistas de extrema-direita”.

Diogo Queiroz de Andrade

Público, 13 de Agosto de 2017

 

Venezuela II

“Portugal mantém com a Venezuela laços de proximidade inseparáveis da presença de uma imensa comunidade portuguesa que ali vive e trabalha. A defesa dos interesses e a segurança da comunidade portuguesa aí residente implicam a condenação das acções desestabilizadoras, terroristas e golpistas que se têm intensificado naquele país. É essa atitude de respeito pela soberania da Venezuela que se exige das autoridades nacionais, independentemente do posicionamento dos EUA ou da UE”.

Jorge Cordeiro

Diário de Notícias, 18 de Agosto de 2017

 

Duas justiças

“A justiça em Portugal é “mais dura” para os negros [título] Um em cada 73 cidadãos dos PALOP está preso. É dez vezes mais do que a proporção que existe para os portugueses. Magistrados e outros agentes do sistema judicial reconhecem que há duas justiças, uma para negros e outra para brancos”.

Joana Gorjão Henriques

Público, 19 de Agosto de 2017

 

Hipócrita conspiração

“Aquele antigo diretor de recursos humanos da Autoeuropa [António Damasceno Correia, in Análise Social, em http://bit.ly/2eVNHTS] conta como em 1994 a administração da Autoeuropa desenhou uma estratégia para neutralizar a ação sindical. Para isso apostou no controlo e reforço de influência da comissão de trabalhadores que ia ser eleita: «Contactou sigilosamente o diretor de cada uma das áreas para que este indicasse nomes de trabalhadores de confiança que pudessem integrar a futura estrutura.» (...) Afinal, porque é que a administração da empresa sempre preferiu negociar com a comissão de trabalhadores do que com os sindicatos? Há já muitos anos Damasceno Correia respondeu a essa pergunta no seu texto na Análise Social: «O facto de ser a comissão de trabalhadores o órgão que seria privilegiado na relação com a empresa tinha também a enorme vantagem de ela nunca poder promover ou decidir o recurso à greve» que legalmente (precisamente para evitar «greves selvagens» que tanto preocupam os críticos da greve na Autoeuropa) só pode ser convocada pelos sindicatos. Ou seja, o interesse da administração da Autoeuropa é lidar com trabalhadores que estejam, na prática, incapazes de usar a greve para fazer valer as suas reivindicações. Foi isso que construiu, sempre na legalidade e através da conspiração mais hipócrita, em 1994”.

Pedro Tadeu

Diário de Notícias, 5 de Setembro de 2017

 

Mundo rural

“Enquanto o país discute a invasão forasteira das cidades, o interior de Portugal tornou-se neste ano a região onde mais cresce a taxa de residência de estrangeiros. O fenómeno é particularmente visível no Alto Douro, onde povoações anteriormente despovoadas são agora ocupadas por gente da Bulgária e do Cazaquistão. Vieram trabalhar nos campos onde faltavam braços e, em dez anos, tornaram-se um improvável balão de oxigénio para a agricultura do país. Em época de vindima e campanha de fruta, é tempo de perceber esta nova figura do mundo rural português”.

Ricardo J. Rodrigues

Notícias Magazine, 17 de Setembro de 2017

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