A tentação plutocrática

Nº 1740 - Outono 2017
Publicado em Internacional por: Hugo Fernandez (autor)

É comumente designado por plutocracia (do grego ploutos – riqueza – e kratos – poder) um sistema político ou uma forma de governo cujo poder é exercido pelos mais ricos. Este domínio dos ricos – também apelidado timocracia – estabelece uma particular influência do poder económico na condução da sociedade e na formação das classes dirigentes, moldando uma estrutura social extremamente desigualitária e elitista. Talvez não encontremos na atualidade melhor exemplo desta situação do que o da administração Trump nos Estados Unidos da América, ainda que haja uma intensa campanha ideológica para dissimular tal estado de coisas.

Com efeito, na ânsia de digerir o resultado das eleições norte-americanas, uma multidão de comentadores e analistas lançaram-se num concurso de explicações mais ou menos rigorosas, teses mais ou menos fantasistas, justificações mais ou menos convincentes, que permitissem entender o que, para todos eles (e muitos, muitos milhões de outros), apareceu como algo incompreensível. A maior parte destas análises acabaram por convergir, porém, numa conceção profundamente enganadora: a de que Donald Trump era alguém fora do sistema. Esta suposta aura antissistémica do presidente eleito levou estes observadores – consciente ou inconscientemente – a alinhar com toda a propaganda desenvolvida pela campanha do magnata nova-iorquino, cujo estilo truculento e provocador pretendeu, desde sempre, vender essa ideia, mas cuja veracidade dificilmente poderá resistir à realidade dos factos.

Candidato antissistema? Constituída sobretudo por lobbyistas e consultores, a equipa do novo presidente americano é bem um exemplo da promiscuidade entre política e negócios em Washington. Nada de novo, portanto. Para um dos principais conselheiros de Trump, Harold Hamm, a presidência do novo inquilino da Casa Branca ficará marcada precisamente pelos cortes nos impostos (dos mais ricos, sublinhe-se) e desregulação da atividade económica, isto é, a cartilha neoliberal que governa o mundo globalizado em todo o seu esplendor: “Funcionou bem com Ronald Reagan baixar os impostos, pôr o povo americano outra vez a trabalhar e desregular”, afirmou Hamm ao Financial Timesi.

Acabar com a legislação financeira de Barack Obama de 2010, a chamada Dodd-Franck Act – lei que, na sequência da crise de 2008, apertou o controlo financeiro e regulou a atividade dos consultores de investimento, ao mesmo tempo que incrementava um sistema de regulação federal e uma rede de agências de defesa dos consumidores – foi um dos primeiros objetivos da nova Administração americana. Tal como o foi a redução da carga fiscal para as grandes empresas de 35% para 15% ou para os multimilionários, diminuindo o escalão máximo da tributação de rendimentos de 39,6% para 33%. Cientes de que os seus interesses estão salvaguardados, os principais bancos americanos já ganharam em Bolsa qualquer coisa como 120 mil milhões de dólares, desde que Trump foi eleito presidente dos EUA. Nas elucidativas declarações ao New York Times de Peter Wehner, o insuspeito autor de discursos de George W. Bush, “Esta ideia de que ele era um outsider que iria destruir o establishment político e secar o pântano eram afinal as deixas de um vigarista”ii.

Oitava maravilha do mundo

Mas afinal o que tem sido a atividade do atual presidente americano? A “8.ª maravilha do mundo”, como Donald Trump a designou na inauguração em 1990, o casino Trump Taj Mahal fechou recentemente, como já tinha acontecido com os seus outros casinos Atlantic Club, Showboat, Reve e Trump Plaza em 2014, mergulhando Atlantic City em mais uma onda de desemprego e miséria para cerca de 10 mil pessoas. Em todas estas situações, Trump aproveitou-se das promessas feitas a investidores incautos e dos estratagemas com que vigarizou pequenas empresas, com o objetivo de garantir uma rápida acumulação de lucros, logo abandonando os empreendimentos feitos assim que os benefícios começaram a não atingir os montantes desejados. Ora, o que pode fazer mais parte do sistema do que a especulação financeira e imobiliária? O que pode ser mais conforme com a ordem neoliberal do que a ideia reaganista do “cada um deve tratar de si e não se preocupar com os outros”?

Para esta gente, a preservação do capitalismo é muito mais importante do que a mais elementar noção de bem-comum, defendendo-se antes um individualismo radical em detrimento de qualquer consideração comunitária. É, aliás, publicamente conhecida a jactância de Trump na fuga aos impostos e o descaramento com que fala do perdão fiscal de que beneficiou. Ele próprio declarou no primeiro debate presidencial, em setembro de 2016, que “Não pagar impostos faz de mim alguém inteligente”. Pode este indivíduo ser apresentado como um inadaptado do sistema? Ou será antes o exemplo perfeito do “empresário de sucesso” incensado pela teologia do mercado, cujo funcionamento sustenta todo o aparelho político estadunidense? Donald Trump considera mesmo que não há conflito de interesses entre a governação do país e o mundo empresarial a que se tem dedicado, tendo chegado a sugerir a gestão dos seus negócios a partir da Casa Branca. As intenções proclamadas do “America first” parecem, aliás, esvair-se nos meros interesses privados do próprio Trump; como sugere Rui Tavares, “Calou-se na questão chinesa mal a China lhe aprovou a marca comercial «Trump» por dez anos.”iii

Falido nos anos 90, salvo por um escandaloso perdão fiscal de que a generalidade da população americana nunca pôde usufruir, o filho do multimilionário Fred Trump, construiu um gigantesco império empresarial que se estendeu do setor imobiliário (hotéis, casinos, prédios de apartamentos e escritórios) – tornando-se um dos grandes senhorios da cidade de Nova Iorque nos anos 80 –, a campos de golfe (na Escócia), uma equipa de futebol americano, uma companhia aérea e a indústria do jogo, do entretenimento e da moda (com a sua marca de roupa a ser produzida no Sri Lanka a baixo custo, diga-se de passagem). Mas que ninguém se iluda. A sua fortuna e o seu caminho de êxito foi feito à custa de uma completa falta de escrúpulos para com os seus concidadãos (isto é, à custa dos outros), aqueles mesmos que, por um processo mimético, votaram nele, esperando ingenuamente atrair sobre si – como que por um “toque de Midas” (de resto, o título de um dos seus mais afamados manuais de autoajuda de pato-bravo) – alguma da fama e da fortuna do multimilionário. Isso e o medo. O medo das disfuncionalidades do atual mundo globalizado que se abateu sobre muitos dos eleitores de Trump enquanto suposto expoente do “antissistema”. A evidente ausência de alternativas facilitou a disseminação da falácia.

Assistimos assim à plena instalação da plutocracia no poder. Não é por acaso que, quando se dirigiu pela primeira vez ao Congresso dos EUA em finais do passado mês de fevereiro, Donald Trump tenha reafirmado a intenção de avançar com uma “grande, grande redução de impostos” para as empresas norte-americanas, para “que elas possam competir em qualquer lado e contra todos”. Para além desta “reforma tributária histórica”, como a caracterizou, prometeu “fazer com que seja fácil para as empresas negociarem nos EUA e muito mais difícil sair”, anunciando também que iria pedir ao Congresso para aprovar um investimento em infraestruturas no valor de um bilião de dólares (embora nunca tenha explicado como vai garantir esse financiamento).

Claro que no “fact checking”iv do discurso presidencial feito pela agência noticiosa Associated Press e pelo jornal The New York Timesv, muitas das afirmações proferidas pelo atual inquilino da Casa Branca apenas podem ser entendidas no âmbito do que se tem vindo a designar por “pós-verdade”, ou seja, o rol de mentiras descaradas a que o consulado trumpista nos tem habituado. Falando sobre a criação de empregos – "Desde que fui eleito, a Ford, Fiat-Chrysler, General Motors, Sprint, Softbank, Lockheed, Intel, Walmart e muitas outras anunciaram que iriam investir milhares de milhões de dólares nos Estados Unidos e que iriam criar dezenas de milhares de novos empregos para americanos"– Trump chama a si o mérito de decisões que há muito tinham sido tomadas, em alguns casos, mesmo antes das eleições presidenciais, como a decisão da Intel de construir uma fábrica de componentes eletrónicos no Arizona, tomada ainda durante a presidência Obama. No caso da Sprint, o recente anúncio de novas contratações por parte desta empresa de telecomunicações segue-se a um processo maciço de despedimentos que faz com que o saldo de empregos criados seja largamente negativo. Em anterior ocasião, Trump tinha dito enormidades como “Vou ser o maior criador de empregos que Deus alguma vez criou.”, afirmação que obviamente não merece comentários. A desregulação da economia que Trump promete efetivar, bem como a possiblidade dada aos empresários de uma total liberdade na administração da força de trabalho, serve às mil maravilhas os interesses do capitalismo financeiro globalizado, fazendo ressoar o célebre dito de um magnata de Detroit, “o que é bom para a General Motors é bom para os EUA”, seguindo a estrita lógica empresarialista que Ronald Reagan tão eloquentemente expressou na afirmação “o governo não é a solução, mas o problema”.

As companhias de Trump

Se dúvidas houvesse relativamente à natureza do poder norte-americano, o editor executivo do semanário Workers World, John Catalinotto, revela-nos quem acompanha Donald Trump na governaçãovi. Atentemos em alguns exemplos: no Department (que traduziremos por Ministério) do Trabalho temos Andrew F. Puzder, multimilionário e dono da cadeia de restaurantes de fast food CKE, que empregam 70 mil pessoas. Foi, desde sempre, opositor à introdução de um salário mínimo e do pagamento de horas extraordinárias. No Ministério da Economia, Wilbur Ross, especulador financeiro que tem uma fortuna avaliada pela revista Forbes em perto de três mil milhões de dólares, é conhecido como o “rei das falências” e acusado de não cumprir as suas obrigações fiscais. Steven Mnuchin, multimilionário e ex-dirigente do Goldman Sachs (banco para o qual trabalhou durante 20 anos) e que omitiu 100 milhões de dólares de rendimentos da sua declaração de impostos é, agora, Ministro das Finanças. Juntamente com Gary Cohn, outro ex-dirigente da Goldman Sachs e atual responsável pelo Conselho Económico Nacional, asseguram a ligação – será melhor dizer, dependência – da Casa Branca relativamente a este polémico gigante financeiro. O secretário de Estado, Rex Tillerson, era o presidente da multinacional petrolífera Exxon, para já não falar do próprio Donald Trump que, a contragosto, deixou os seus múltiplos interesses empresariais a cargo de familiares, que depois contratou como seus conselheiros (o mesmo Trump que, como se sabe, se gaba de não cumprir as obrigações fiscais e que recusa a divulgação das suas declarações de impostos).

Outras personalidades com ligações igualmente controversas, estão presentes no executivo de Trump: Betsey De Vos, filha de multimilionário e casada com outro, o herdeiro da Amway Corp (avaliada em 5,5 mil milhões de dólares), foi responsável pela promoção do ensino privado em alternativa à escola pública no Estado de Michigan; é agora ministra da Educação. Scott Pruit, empresário da indústria mineira, não acredita que as alterações climáticas tenham o contributo da ação humana; é o atual responsável pela Agência Ambiental, instituição governamental que, desde logo, prometeu rejeitar o Acordo de Paris, bem como`eliminar as mais importantes regulamentações em matéria ambiental. Olhando para estes e outros exemplos do elenco governativo norte-americano, Catalinotto conclui: “O novo presidente dos EUA está rodeado de milionários e patrões.” Aliás, a estimativa da fortuna combinada da equipa ministerial de Donald Trump, segundo a NBC, é de cerca de 14.500 milhões de dólares, o equivalente aos rendimentos da terça parte mais pobre dos norte-americanos – 43 milhões de pessoasvii. Se isto não é o sistema…?

Para o antropólogo indiano Arjun Appadurai, a mensagem económica que Trump transmite aos americanos é muito simples: “deixem os ricos ser ricos e alguma coisa sobrará para vocês.”viii Ora, como sublinhou o historiador Manuel Loff, “Uma sociedade que sacraliza a riqueza escolhe ricos para a representar.”, segundo a ideia de que “quem é rico é-o por mérito próprio”, ainda que seja o mérito de “manipular o mercado, da lei do mais forte e da conquista de espaço mediático.” Com Trump, chegou-se a este ponto: “um dos homens mais ricos dos EUA, que está no centro da oligarquia, denuncia as maldades do sistema e promete vingar as vítimas do empobrecimento.” Loff conclui, “Pelos vistos, não há nada de mais convincente que um rico que, em nome dos pobres, se queixa dos outros ricos.”ix A retórica do make America great again significa sobretudo a total submissão da população americana aos ditames da plutocracia reinante.



i Público, 12/11/2016.

ii Ibidem.

iii Público, 6/3/2017.

iv “Verificação de factos”.

v Cf. Diário de Notícias, 2/3/2017.

vi Cf. Seara Nova, nº 1737, 2016.

vii Visão, 26/1/2017.

viii Público, 18/12/2016.

ix Público, 12/11/2016.

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