O Brasil de Temer O silêncio das ruas rompido no cenário da música

Nº 1740 - Outono 2017
Publicado em Internacional por: Cristiane Tolomei (autor)

Entre boa música e gritos de “Fora Temer” assim foram os sete dias do Rock in Rio, um dos maiores espetáculos da música do mundo, que foi palco de desabafo de mais de 700 mil brasileiros que passaram por lá nos dias 15, 16, 17, 21, 22, 23 e 24 de setembro de 2017, no Parque Olímpico do Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca.

Com bandas nacionais como Jota Quest e Titãs, o público vibrou e gritou ao som dos clássicos “De volta aos planetas dos macacos” e “Vossa Excelência”, ambas realizando uma crítica ferrenha aos políticos do Brasil.

Foi um cenário ilustrativo da impopularidade do atual presidente do Brasil, Michel Temer, que assumiu o poder do país, após um questionável processo de impeachment de Dilma Rousseff no dia 31 de agosto de 2016. Como acusações a farsa das chamadas "pedaladas fiscais”.

Mais de cinco anos sendo vice-presidente do Brasil, Michel Temer finalmente realizou o seu sonho de assumir a presidência do país no dia 31 de agosto de 2016. Um pouco mais de um ano do governo ilegítimo, Temer e seus companheiros buscam (e até o momento conseguiram muitas conquistas) aprovar cortes nos direitos trabalhistas, plano de congelamento de gastos sociais por 20 anos, aumento na idade da aposentadoria, redução de direitos políticos e a lista segue.

O pacote do horror oferecido ao povo brasileiro vem em meio à uma crise social e econômica que não parece ter fim. O Brasil vive um dos seus piores momentos da sua história: taxa de desemprego subindo absurdamente e dívidas nos municípios e estados, ocasionando sérios problemas como no caso do Rio de Janeiro que apresenta um cenário de caos tanto em relação aos descasos com pagamento de salários dos funcionários públicos, com a saúde e com a segurança pública. Ademais da crise econômica, há uma crise social preocupante, uma vez que está ocorrendo o retorno de movimentos conservadores, racistas e fascistas, que insistem em derrubar muitas conquistas sociais tanto para negros quanto mulheres e a comunidade LGBT. É uma triste realidade.

O Brasil embalado no verso “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”, escrito por Chico Buarque durante a Ditadura Militar, verso este que parece desenhar muito bem o comportamento do povo brasileiro, inerte e silencioso, diante das piores decisões do Governo para o seu futuro e do país. Diferente das ruas lotadas na ocasião do pedido de impeachment de Dilma Roussef, movimento este liderado por grupos de direita e da elite brasileira, hoje não há ânimo, não há crendice, não há fé mediante ao que está ocorrendo no cenário político e judiciário do Brasil: corrupção e mais corrupção, escândalos e mais escândalos, que se tornaram algo corriqueiro na mídia nacional (grande parte desta mídia golpista) e no cotidiano dos brasileiros. Na verdade, nada mais choca, o crime caiu na banalidade, instituiu-se e ninguém mais acredita que a situação irá melhorar de imediato.

O Brasil eternamente conhecido como o país do futuro (quando acreditávamos que realmente o futuro havia chegado para nós), coloca todas as suas esperanças nas Eleições de 2018 como único meio de “sacudir a poeira e dar a volta por cima”. Destacam-se nomes como o do ex-presidente Lula e do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), como líderes populistas e de “esquerda”, contrários à onda reacionária e conservadora liderada pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC), do ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), a luta dentro do PSDB entre os nomes do Governador de São Paulo Geraldo Alckmin e do Prefeito de São Paulo João Dória, seguidos da ex-senadora Marina Silva (Rede).

O quadro nos parece repetitivo e desolador, daí a esperança do povo no retorno de Lula para a presidência, uma vez que a memória do brasileiro ainda está fresca e sabe que entre 2002 a 2010, muitos direitos foram adquiridos, a educação e a saúde melhoraram, as pessoas passaram a ter mais conforto e tudo parecia melhor. Quadro distante do atual, de desolação, desânimo e da descaracterização da identidade nacional, já que sinônimo de brasileiro é alegria, sobretudo, na famosa expressão “tudo dará certo”, no futuro claro.

Voltando ao cenário da música, o público do Rock in Rio rompeu com o silêncio das ruas, gritando para todo o mundo o seu descontentamento com o governo do golpista Michel Temer que colocou o Brasil no quadro do subdesenvolvimento e no retrocesso do cenário internacional. Um eco ensurdecedor contra as barbáries que rompem intencionalmente com o pacto civilizatório obtido na Constituição de 1988, ocasionando o abandono explícito da população, que volta a sofrer com as desastrosas decisões políticas.

A presidente legítima Dilma Rousseff adotou o lema "País rico é país sem pobreza" em seu primeiro mandato e no fim dele havia cumprido a promessa, quando o Brasil finalmente saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas.

Essa conquista, no entanto, foi derrotada por apenas um ano do governo ilegítimo, que passou a excluir milhares de famílias do Programa Bolsa Família, reduzir o valor investido no Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar, que apoia os pequenos agricultores, e desempregar mais de 7 milhões de brasileiros. Michel Temer e seus comparsas são um tsunami, destruindo tudo a sua volta, beneficiando somente as elites agropecuárias e industriais e os banqueiros, isto é, a minoria da minoria do país, enquanto o restante dos brasileiros está incrédulo diante do que está ocorrendo no país e sofrendo as consequências das más decisões políticas. A situação é a seguinte: Michel Temer destruiu o país e liquidou a imagem do Brasil no mundo.

E os problemas não são somente econômicos, há centenas de episódios de ódio, de homofobia, de preconceito irracional em relação à raça, ao gênero e à religião que, infelizmente, ganham força no país com seguidores de Bolsonaro e o grupo de políticos que tomam decisões embasadas em suas religiões, destoando do Estado laico, defendido na Constituição.

O absurdo dos absurdos foi o cancelamento no dia 10 de setembro da exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte, no Santader Cultural, situado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que tinha sua amostra prevista para terminar somente no dia 8 de outubro. O próprio Santander Cultural foi responsável pelo absurdo cancelamento da mostra, sendo uma resposta a protestos nas redes sociais organizados por grupos conservadores e religiosos que consideravam a mostra ofensiva e fazia apologia “à zoofilia e pedofilia".

Diante desse brevíssimo resumo do cenário desastroso brasileiro, só podemos afirmar que as vozes de mais de 700 mil brasileiros no Rock in Rio não podem assumir sozinhos uma luta popular, que deveria ser de milhões de brasileiros nas ruas de todo o país. Todavia, precisamos acreditar que depois da calmaria, vem a ressaca. E por ser brasileira, não poderia ser diferente, e me apego na esperança de que acordemos logo ou será tarde demais para resolver a avalanche de desgraças que estão ocorrendo no Brasil e não será eleições que dará conta do recado.

Acorda Brasil!

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