Civilização, sociedade, democracia

Nº 1740 - Outono 2017
Publicado em Tribuna Pública por: Helio Viegas (autor)

A propósito da greve ocorrida na Autoeuropa ouvimos, e lemos, vindos dos mais diversos sectores da nossa sociedade, opiniões, análises, posições que, em geral, afinavam todas pelo mesmo diapasão: A irresponsabilidade dos trabalhadores e suas organizações de classe, irresponsabilidade extensiva a todos aqueles que com a sua luta se solidarizaram.

Diríamos que a situação não é nova mas o alarido agora foi muito maior! É que agora entrava no jogo não a Telecom, a Galp ou uma Moreira & Moreira Lda qualquer, mas a Volkswagen.

E quem é a Volkswagen? O que tem a Volkswagen?

É alemã, é o maior construtor automóvel europeu, realiza cerca de 1% do PIB português e é um dos principais símbolos do capitalismo triunfante a nível mundial!

Mas, chatice! Tem trabalhadores. Está num país que tem leis, uma Constituição, direitos.

E foi no uso dos seus direitos que os trabalhadores decidiram aquela acção de luta! Decidiram-na legalmente. Decidiram-na de forma democrática, amplamente participada. Decidiram-na como forma de exercício de direitos e liberdades fundamentais. Não decorria da sua decisão qualquer perigo para a democracia, não era posta em questão a segurança ou a integridade nacionais.

Após 43 anos de democracia deparamo-nos ainda, lamentavelmente, com reacções desta natureza ao exercício de direitos legítimos, direitos constitucionais que, vindas de gente e sectores que se afirmam intransigentes defensores das liberdades e da democracia, não são mais que a confirmação da existência, ainda bem arreigada, nas suas mentes, normalmente conservadoras e de direita, do espectro do comunismo! Comunismo consubstanciado, no caso português, no Partido Comunista e na CGTP!

Espectro que vêm como um perigo, não para a democracia nem para as liberdades, que, afinal e no fundo, consideram coisas de somenos importância, mas sim para o bom andamento dos negócios! Dos grandes negócios! Da estabilidade capitalista!

Violam subservientemente, e sem quaisquer escrúpulos, a Constituição do seu País, censuram e menorizam quem, cidadãos como eles, comete o arrojo de exercer um direito e dizem-se civilizados! Prezam muito a sua independência (de quem?). São limpos, insuspeitos, até romper o primeiro escândalo!

O fascismo anda por aí!

Que sentido, que noção, têm afinal da vida em sociedade, da própria sociedade em si?

Embora não sendo novidade, todos o sabem, é sempre bom lembrar que as liberdades, os direitos, embora constitucionalmente consagradas, não estão assim tão assumidas, e muito menos consolidadas, na sociedade onde mesmo muitos daqueles que constantemente as juram só as evocam quando lhes convém.

Por isso, e não é caso virgem, a democracia, vontade da maioria livremente expressa, pode mesmo, se não for intensa e largamente praticada, servir os objetivos dos seus inimigos.

Até que os direitos, as liberdades, a democracia, se consolidem de facto há um longo caminho a percorrer. Um longo caminho de luta para remover os múltiplos fatores que condicionam de forma ilegítima as decisões do poder político democrático.

Longo caminho que, pela sua enorme complexidade e imensidade de obstáculos a vencer, obriga todos, os que, consciente e consequentemente, assumem a condição de democratas – os obreiros da democracia - a um exercício permanente de questionamento, de reflexão sobre as posições que a cada momento é necessário assumir de forma coerente e fundamentada, diríamos mesmo transparente, para que as transformações pretendidas se operem, progressiva e solidamente, sem desvios oportunistas nem adulterações ideológicas.

Independentemente da sua fragilidade, da manipulação e condicionamentos a que está sujeito o atual sistema democrático (esta “democracia burguesa”) é nele que – qual campo de batalha - no exercício do mais fundamental dos direitos, o direito à liberdade individual, conquista fundamental da civilização humana, se desenvolverão os processos, as mudanças, mais ou menos reformistas, mais ou menos revolucionárias, que transformarão o mundo e as formas de funcionamento da sociedade fazendo vencer os valores da igualdade, da solidariedade, da fraternidade, enfim da justiça. Porque um mundo mais justo, para todos, é possível!

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