Camilo Pessanha, escritor polígrafo e cidadão interveniente

Nº 1741 - Inverno 2017/18
Publicado em Memória por: Daniel Pires (autor)

«Que eu, desde a partida,
Não sei onde vou.
Roteiro da vida,
Quem é que o traçou?»
Clepsidra


Um percurso existencial acidentado marcou decisivamente a personalidade de Camilo Pessanha. Nascido em Coimbra em 1867, filho primogénito de uma tricana e de um estudante de Direito, trilhou também ele a senda das leis. Naquela cidade, ensaiou as suas primícias literárias, subscrevendo, em jornais e revistas esparsos, poemas, contos e crónicas que evidenciam a sua sensibilidade dorida, uma imaginação pródiga e um considerável sentido crítico da realidade.

Data de 1891 a sua formatura em Direito, tendo, de imediato, exercido o cargo de subdelegado do Procurador Régio. Por esta época, sediado em Mirandela, teve oportunidade de manifestar o seu ideário republicano num conflito que o opôs a um grupo de monárquicos, que tinha a arbitrariedade como lei.

Em 1893, sofreu um rude golpe: a escritora Ana de Castro Osório declinou o seu pedido de casamento, formalizado por carta. Pouco depois, Camilo Pessanha concorreu a um lugar de professor no Liceu de Macau. Obtido este cargo, rumou para o Oriente, tendo nele leccionado na companhia de, entre outros, Wenceslau de Moraes. Teve então início uma amizade perene que uniu duas almas gémeas – na sensibilidade, na angústia existencial e na forma como, em páginas de filigrana, expressaram a sua mundividência.

Camilo Pessanha leccionou sucessivamente filosofia, língua portuguesa, história, geografia, economia política, direito comercial e história da China. Da sua autoria é o regulamento do Liceu, elaborado em 1894, pouco depois de ter chegado ao Oriente. Nas aulas que ministrava tinha como preocupação primeira sensibilizar os alunos para a aventura da descoberta, da problematização, transmitindo uma perspectiva humanista e universalista. Privilegiava o raciocínio, a sensibilidade e a imaginação em detrimento da memória [1]. O Leal Senado, quando pretendeu encerrar o Liceu em 1912, alegando os seus custos proibitivos e a sua reduzida frequência, teve em Camilo Pessanha um adversário vigoroso. Na segunda década do século passado, manifestou-se, por diversas vezes, a favor da promoção daquele estabelecimento de ensino a Liceu Central, facto que possibilitaria o acesso directo à Universidade, esforços esses que foram finalmente recompensados em 1919.

Sinólogo empenhado

Macau despertou no poeta uma empatia considerável pela civilização chinesa. Nasceu, assim, o sinólogo empenhado em sondar, para melhor compreender, a idiossincrasia e a cultura do Império do Meio. Datam do início da sua estada naquele território cartas que expressam a sua capacidade de observação da realidade envolvente e a sua curiosidade perante uma civilização que o surpreendia a cada passo. Corolário desse entusiasmo foi a aprendizagem do idioma sínico, cuja evolução registou na sua escassa correspondência: “Já sei muito china: ler, falar e até escrever um pouco: Peng on [2]. Está escrito nos pagodes e quer dizer paz e sossego”[3].

Na mesma linha confessional, evocou o seu percurso naquele território, em carta inédita dirigida, no dia 21 de Setembro de 1912, a Carlos Amaro: “Como sabe, estou aqui há quase vinte anos, tendo durante esse tempo aplicado a este meio exótico o esforço da minha inteligência. (…) Claro está que à minha vida precisava de dar um objectivo – sob pena de morrer de tristeza. E qual outro poderia ser aqui senão estudar a língua chinesa, os costumes chineses, a arte chinesa? (…) Tenho, pois, estudado com furor, até onde me permitem as minhas forças escassas. Aprendi a falar a língua chinesa (falo correntemente o dialecto cantonense), e um pouco a ler e a escrever”.

Deve-se a José Vicente Jorge e a Camilo Pessanha a autoria de um dos primeiros manuais de aprendizagem do chinês para falantes de língua portuguesa: Kuok Man Kau Fo Shü – Leituras Chinesas, que veio a lume em 1915.

Capitalizando o conhecimento do idioma chinês, o escritor trilhou a senda pedregosa da tradução. Em carta inédita enviada, no dia 8 de Março de 1912, a Carlos Amaro, afirmava estar “empenhado em concluir a tradução em prosa, quase acabada, de um formosíssimo cancioneiro elegíaco da dinastia Ming – única e minúscula obra que eu desejaria deixar impressa, ou, pelo menos, completa, como lembrança da minha gratidão, àqueles a quem mereceram piedoso interesse as imperfeições da minha alma… da minha vida”.

A tradução das mencionadas elegias, feita com rigor, é exuberante de notas e conserva, na medida do possível, o ritmo, a musicalidade e o elemento prosódico inerentes à língua chinesa. Esta tarefa de extrema dificuldade – aproximar dois idiomas radicalmente diferentes –, proporcionou-lhe “horas de um tão suave prazer espiritual que dele o não esperava tamanho”[4]. Camilo Pessanha traduziu igualmente três cartas de piratas, que, em 1910, exigiam um pesado resgate pela libertação de 18 crianças raptadas em Coloane – delinquentes que ele próprio julgou e condenou –, bem como provérbios, máximas e contos chineses que revelam a sua motivação pela filosofia oriental.

Camilo Pessanha conviveu com Sun Yat-sen, o primeiro presidente da República chinesa e médico que exerceu em Macau, como atestam três fotografias do início do século XX. A empatia do escritor relativamente à China englobou também as suas manifestações artísticas. Ao longo dos cerca de 26 anos em que permaneceu no Oriente, frequentou com assiduidade os tim-tins – ou seja, os ferros-velhos – e as casas de penhores de Macau e de Hong Kong, em busca de peças de arte chinesa. Há inclusivamente notícia de se ter deslocado, mais do que uma vez, a Cantão com o mesmo objectivo, empreendimento que na época não era fácil de se concretizar.

Os exemplares de arte chinesa que coligiu foram pelo poeta doados ao Museu Nacional de Machado de Castro, sediado em Coimbra, e podem ser parcialmente apreciados no Museu do Oriente, em Lisboa. É uma colecção que se pauta pelo eclectismo, compreendendo pintura, caligrafia, bordados, indumentária, joalharia, escultura e cerâmica. Das cerca de 370 peças que a constituem, fazem parte cabaias, saias, sapatos, colares, alfinetes de cabelo, um estandarte, vasos litúrgicos, um biombo, uma ânfora, perfumadores, jarras, boiões japoneses, tambores, taças, frascos de rapé, uma mesa de madeira, caixas, copos, etc. Este precioso acervo apresenta ainda uma sineta da dinastia Tong (618-906); pinturas de Yen-Wen Kuei e de Hou Yi, bem como caligrafia de Mei Lun Cheong, da dinastia Song do Norte (960-1130); uma pintura sobre seda em rolo, da autoria de Li Kung Liu, da dinastia Yuan (1280-1367); pinturas de Chio Chi Li, Tang Vuan P’á, Lóc Si Tou, Chio Iong, Chü Ioc, Ting Yun Peng, Shao Mi e Ung Wai, bem como pratos, estatuetas, um jarro, um sino de bronze, perfumadores e sedas da dinastia Ming (1368-1644); inúmeras peças da última dinastia, a Qing (1644-1911).

No ensaio

Em 1899, o poeta coadjuvou o médico Lourenço Pereira Marques na reunião de peças de carácter etnográfico, as quais foram oferecidas à Sociedade de Geografia de Lisboa.

No domínio do ensaio, Camilo Pessanha debruçou-se dialecticamente sobre a arte, a literatura, a língua e a civilização sínicas. Advogou que a “vida chinesa é mais dotada de arte”, graças à “vivacidade de imaginação, à perspicácia de intuição do pitoresco, ao equilibrado sentimento da composição e ao enternecido amor pela natureza”, qualidades que considera intrínsecas da população, confessando-se um seu admirador fervoroso.

Particularmente sensibilizado se mostrou o escritor relativamente ao chinês, “a mais formosa e a mais sugestiva de todas as línguas literárias vivas ou mortas”. Ponderou a sua prosódia, “de um alto valor oratório e poético”, admirou a estética dos ideogramas e o “seu grande poder de evocação visual”, que, no seu entender, ultrapassa o da ortografia etimológica. Confessou ainda ter usufruído assinalável prazer no seu estudo e aconselhou os portugueses residentes em Macau a dedicarem-se “ao estudo da língua chinesa e da civilização chinesa, nos seus múltiplos aspectos, as horas que dos seus serviços obrigatórios lhes restarem livres –, pois que, além do alto serviço que com esse estudo prestarão à pátria portuguesa, auferirão, do seu próprio esforço, inefável deleite espiritual”.

Corolário da sua empatia pela escrita ideográfica foi a admiração que nutriu pela literatura chinesa, “pela beleza que encerra, pela surpresa que causa e, principalmente, pelos vastos horizontes que entreabre ao espírito sobre a condição geral da humanidade e pela intensa luz que projecta sobre o modo de ser das civilizações extintas”. Considerou a sua originalidade e antiguidade, referiu a sua pluralidade e beleza e debruçou-se sobre a obra de Confúcio que, no seu entender, “apresenta um duplo carácter de enciclopédia e de monumento étnico colectivo”, constituindo a “própria alma chinesa”.

A actividade profissional de Camilo Pessanha em Macau não se circunscreveu à docência. Foi um jurista de mérito, como demonstram duas obras raras de que foi autor – Serena Justiça e Desorientação – bem como os depoimentos dos seus contemporâneos; considerando a sua competência, era frequentemente consultado em acções de carácter mais complexo.

Ainda no âmbito da jurisprudência, exerceu o cargo de conservador do Registo Predial (1900-1919), foi por diversas vezes juiz de direito substituto (1904, 1916, 1919, 1920 e 1921), juiz auditor dos Conselhos de Guerra (1902, 1910, 1914) e, em Julho de 1916, fez parte de uma comissão que redigiu um projecto de regulamento do Registo Civil. Sendo conhecida a sua particular apetência pela civilização chinesa, foi nomeado presidente de um grupo de trabalho que elaborou, em Julho de 1904, um regimento administrativo de negócios sínicos. Anos depois, em 1911, coube-lhe redigir, com outros juristas, o regulamento de um Tribunal Privativo para os chineses. A partir de Março de 1920, exerceu a advocacia nos tribunais de Macau, sendo a sua dialéctica temida pela parte contrária. Em 1923, foi conselheiro do governo para assuntos relativos à comunidade chinesa.

Poesia de consciência social e cívica

Digna de menção é a consciência social e cívica de Camilo Pessanha: era sensível aos direitos dos presos e solidário com as camadas sociais mais desfavorecidas, às quais, na qualidade de juiz, aplicava a pena mínima que a lei estatuía. Neste âmbito, registe-se a sua oposição firme, em 1904, à extradição de um mandarim, solicitada pelo vice-rei de Cantão, alegando que o acusado não teria direito a defender-se e que seria executado pelas autoridades, como, na realidade, pouco depois de ser entregue, veio a acontecer[5].

Como assinalámos, Camilo Pessanha doou, em 1915 e em 1926, a sua colecção de arte chinesa ao Estado Português. Idêntica atitude teve relativamente à sua biblioteca, que, por disposição testamentária, legou à Repartição do Expediente Sínico. Este acervo, que se encontra na impressiva biblioteca do Leal Senado de Macau, consta de, aproximadamente, 750 volumes, sendo nele hegemónicos a literatura, a história, a etnografia, o direito, a sociologia e a civilização chinesa.

A pedra de toque da obra de Camilo Pessanha é a sua poesia. Ao que parece, o escritor não se preocupou muito com a publicação em livro das suas composições, que eram recitadas nas tertúlias literárias de Lisboa, como assinalam quer Fernando Pessoa, quer Carlos Amaro. Em 1920, Ana de Castro Osório, proprietária da editora Lusitânia, deu à estampa a Clepsidra, que reunia apenas 30 poemas, dobrara o escritor os 53 anos.

Camilo Pessanha compôs maioritariamente a sua poesia na juventude, sendo os anos em que se mostrou mais prolífico os primeiros passados em Macau, ou seja, os compreendidos entre 1894 e 1900. Foram escassos os poemas compostos posteriormente, o que não significa que o escritor não fosse polindo, limando, cinzelando a sua obra, em busca de uma forma final depurada, como nos demonstra Paulo Franchetti na sua edição crítica da Clepsidra[6].

Poesia plural que exige um leitor interveniente e de imaginação ágil, intimista pelos múltiplos mundos interiores que sonda, seminal por tudo o que sugere, etérea, líquida, onírica com laivos surreais, ecoando fortes ressonâncias de vivências doridas, caracteriza-se também pela sua musicalidade e por um ritmo que nos enleia. Note-se ainda a criteriosa escolha do adjectivo, o paralelismo geométrico das suas composições, a repetição engenhosa do verso, o rigor da métrica – de que o poema em pentassílabos Violoncelo é paradigma – e a economia de processos.

A poesia de Camilo Pessanha reflecte a precariedade da natureza humana, o seu caracter efémero, a sua fragilidade, sendo sintomático que a Clepsidra comece e termine com poemas que expressam desalento e derrotismo. Com efeito, estão muito presentes na sua obra a inquietude, o mal de vivre, a “falta de harmonia”: “Tenho sonhos cruéis: n’alma doente / Sinto um vago receio prematuro. / Vou a medo na aresta do futuro, / Embebido em saudades do presente”. A angústia existencial é expressa pela utilização de verbos que indicam decadência ou que se caracterizam pela violência – poluir, quebrar, arrancar, despedaçar, derruir, perder, afundir, arrebatar e rasgar. A dicotomia luz / escuridão, sonho / realidade, a frequente referência aos olhos – incêndidos, cansados, febris, apagados, acesos, cativos, pagãos, baços, turvos, transviados, ardidos – ou ao coração – vazio, fútil, em revolta, átono, miserando – são outros meios de expressar a dor que o possuía, uma existência de “naufrágios”, “ruínas”, “medos”, “aridez de sucessivos desertos”, numa voragem que conduzia ao nada.

Um outro tema afluente na Clepsidra é a morte – redentora, que purifica e permite finalmente atingir a serenidade, sendo paradigmático o poema Branco e Vermelho, cujo ritmo crescente é alucinante e singular.

Perpassa ainda pela poesia de Camilo Pessanha um fatalismo inelutável, que está na origem do seu sofrimento, caso concreto do soneto Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho, evidente também nos versos “Depois das bodas de oiro, / Da hora prometida, / Não sei que mau agoiro / Me enoiteceu a vida…” ou ainda no Soneto de Gelo, quando manifesta a sua incapacidade para atingir a paz interior: “Buscando a luz em vão – sempre às escuras”.

Porém, nem tudo é pessimismo na Clepsidra: existem algumas composições, esculpidas na juventude, que constituem hinos ao amor platónico, como, por exemplo, Interrogação, ou um apelo ao erotismo, à cumplicidade, à entrega, em Desejos, Crepuscular ou Esvelta surge! Vem das águas, nua.

Tendo vivenciado a realidade macaense, é compreensível que a matriz oriental esteja presente na poesia de Camilo Pessanha. Referimo-nos aos poemas Ao Longe os Barcos de Flores, Viola Chinesa e Porque o melhor, enfim, que evidenciam o traço irrelevante do quotidiano, a distanciação relativamente à realidade terrena e uma certa quietude búdica.

Sinólogo de mérito, falecido e sepultado em Macau, poeta singular, tradutor rigoroso, intelectual interveniente, Camilo Pessanha foi um marco indelével no diálogo civilizacional entre o Oriente e o Ocidente, razões indeclináveis para saudarmos vivamente a celebração dos 150 anos do seu nascimento.

 

Notas:

[1] Cf. Barreiros, André, “Professor Pessanha: na Memória da minha Avó: ‘…. Tinha Eu 16 Anos…’” in Homenagem a Camilo Pessanha (organização, prefácio e notas de Daniel Pires). Macau: Instituto Português do Oriente / Instituto Cultural de Macau, 1990.
[2] Camilo Pessanha escreveu os respectivos caracteres chineses.
[3] Carta parcialmente inédita, não datada, dirigida, em 1894 ou 1895, a Alberto Osório de Castro.
[4] O Progresso (Macau), 13 de Setembro de 1914.
[5] Cf. Correspondência de Camilo Pessanha. Organização, prefácio, cronologia e notas de Daniel Pires. Lisboa / Campinas: Biblioteca Nacional, Universidade de Campinas, 2012, pp. 299-301.
[6] (acrescentar a nota [6] Cf. Clepsydra, edição crítica de Paulo Franchetti. Lisboa: Relógio de Água, 1995.

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