O sal da terra*

Nº 1743 - Verão 2018
Publicado em Editorial por: Revista Seara Nova (autor)

 

“A mudança de século, com a integração no espaço comum europeu, a revolução tecnológica, as redes sociais, o telemóvel, a globalização, exigiu-nos a adaptação do novo país a um novo mundo.”

 



“A democracia representativa, os partidos políticos, a Constituição da República, tendo embora contribuído consideravelmente para refundar o Estado com o projecto nascido no 25 de Abril, não foram suficientes para erradicar os vícios mentais que continuam a impedir a resposta que se impunha às novas condições do Portugal de Abril.”

 


“A gestão do Estado (...) revela com frequência uma cultura do desperdício, nas mais diversas áreas.”

 

 

 

 



“A pobreza estreme, que persiste para centenas de milhares de portugueses, envergonha-nos e continua a ser um estigma para todos nós.”

 



“O enriquecimento ilícito, à custa do bem público, representa um profundo aleijão no funcionamento do regime democrático, confundindo-se por vezes com um verdadeiro assalto aos cofres públicos e ao próprio Estado, com a privatização dos seus nacos mais apetecíveis.”

 

 

 

 



“A Seara Nova, atenta ao mundo real, entende que os tais entorses e aleijões crónicos continuam a ter resposta eficaz no quadro da Constituição da República, se integralmente cumprida, num país onde a produção da riqueza possa aumentar e, sobretudo, onde a sua distribuição seja feita de forma mais justa e equitativa.”

Chegado ao último quartel do século XX, Portugal entrou num novo ciclo da sua História: menos espaço (o fim do Império), mais população (os vindos de África), havia que repensar o país em função dessa nova realidade. Com a válvula de escape da emigração, o êxodo de alguns privilegiados ou inadaptados aos novos tempos e uma Constituição que apontava a um país num outro modo de desenvolvimento, a mudança de século, com a integração no espaço comum europeu, a revolução tecnológica, as redes sociais, o telemóvel, a globalização, exigiu-nos a adaptação do novo país a um novo mundo.

A transformação da sociedade tinha que ser, assim, mais profunda do que a que ocorrera com a substituição do regime monárquico pela República (1910), para continuar a aprofundar o esforço de reorganização do Estado e regeneração de mentalidades que vinha da Revolução de 1820, visando a afirmação do princípio da soberania nacional, o respeito da personalidade individual e a igualdade de direitos do cidadão.

Não foram poucas as dificuldades por que passou a República parlamentar (1910-1926) para levar por diante a reforma de um país com uma população cronicamente afectada por múltiplas chagas sociais, a começar pela pobreza, com a permanente canga de deficit do tesouro público, que o Eça assim retratava: “O povo, esse, reza. É a única coisa que faz, além de pagar”.

Como se não lhes bastasse a necessidade de enfrentar a reacção monárquica e antiparlamentar, além da participação na Iª Guerra Mundial, os republicanos ainda tiveram que se haver com as suas querelas internas, que incluíram o fraccionamento do próprio Partido Republicano.

A ideia de salvação da Pátria clamava assim pelos esforços de todos os que, rejeitando a cumplicidade da indiferença, não podiam ficar alheios à intervenção cívica e política – donde o envolvimento de muitos intelectuais que, pelas ideias e pela acção, deram o seu contributo a essa tarefa regeneradora.

Assim surge o projecto Seara Nova, em 1921, reagrupando intelectuais adversários do Integralismo Lusitano que, por sua vez, combatia a “mentira democrático-parlamentar” pelo regresso a uma monarquia orgânica tradicional e hierarquizada que recuperasse os valores do antigamente. Os seareiros apresentavam-se com um projecto de reformas destinadas à regeneração do povo português, com um levantamento objetivo da situação política, económica, financeira, social, cultural e mental do país, adiantando o remédio necessário à obra de salvação que se impunha. Idealistas no mundo real, com a análise crítica de uma sociedade eivada de seculares preconceitos de passal e sacristia, o choque com a realidade, quando aceitaram envolver-se na prática governativa, revelou-lhes que as boas intenções não eram, por si sós, mezinha bastante para aliviar as dores da Pátria – e assim viriam a ser submergidos pela força das coisas que, a partir de 1926, com o 28 de Maio, havia de derrapar para os quarenta e oito anos da ditadura da trilogia Deus, Pátria e Família.

A liberdade alcançada em Abril de 1974, em condições históricas únicas e, de certo modo, particularmente favoráveis (o regresso às origens, a uma nova estaca zero, com a independência das colónias), veio a apontar, pelo condicionalismo interno e externo bem conhecido, ao novo projecto de vida colectiva baseado na Constituição de 1976 e levado à prática em função do desenvolvimento político e social daí resultante.

Agora, decorrido quase meio século sobre o 25 de Abril, o país está mais apresentável, está outro: a educação, a saúde, o bem-estar geral, fizeram o seu caminho relativo, mas subsistem indesculpáveis insuficiências e deficiências, muitas delas com origem nos vícios das mentalidades, agora potenciados pelas novas tecnologias, a inscrição num mundo globalizado e as pretensas novas facilidades democráticas. A democracia representativa, os partidos políticos, a Constituição da República, tendo embora contribuído consideravelmente para refundar o Estado com o projecto nascido no 25 de Abril, não foram suficientes para erradicar os vícios mentais que continuam a impedir a resposta que se impunha às novas condições do Portugal de Abril. Não se ultrapassou a excessiva centralização, o poder local democrático correspondeu, em boa parte, ao que dele se esperava, mas não era tão inevitável assim aquilo que veio a acontecer: aberta a janela, entrou o ar fresco da liberdade mas com ele demasiada poeira e moscas em excesso.

A gestão do Estado, marcada por opções ideológicas e políticas, por vezes incompreensíveis e inaceitáveis, revela com frequência uma cultura do desperdício, nas mais diversas áreas, de que é exemplo, na riqueza do nosso capital humano, a formação profissional, que suportamos, de técnicos forçados à emigração, cuja competência é aproveitada, a custo zero, pelos países desse destino forçado.

A pobreza estreme, que persiste para centenas de milhares de portugueses, envergonha-nos e continua a ser um estigma para todos nós.

A proliferação de casos de polícia, envolvendo pessoas singulares e colectivas, que, rapidamente e em força, visam o seu enriquecimento ilícito, à custa do bem público, representa um profundo aleijão no funcionamento do regime democrático, confundindo-se por vezes com um verdadeiro assalto aos cofres públicos e ao próprio Estado, com a privatização dos seus nacos mais apetecíveis. O fenómeno de corrupção conspurca o processo democrático.

A Seara Nova, atenta ao mundo real, entende que os tais entorses e aleijões crónicos continuam a ter resposta eficaz no quadro da Constituição da República, se integralmente cumprida, num país onde a produção da riqueza possa aumentar e, sobretudo, onde a sua distribuição seja feita de forma mais justa e equitativa.

 

*Padre António Vieira, Sermão de Santo António (aos Peixes)


É desesperante a situação em que Portugal se encontra.

São preocupantes os aspectos e indicadores financeiros, económicos, sociais, mas é limitativo confinar a tais planos a gravidade da situação actual do nosso País. No entanto são tais indicadores que em primeira análise dão a exacta medida das nefastas políticas que têm sido adoptadas e da fraca qualidade dos governantes que têm estado à frente dos destinos deste País, bem como das distorções do sistema económico em que estamos inseridos.

Dizemos que é limitativo, porque a degradação da sociedade portuguesa – e igualmente da europeia – é grave noutros planos, como o político, em que a democracia está restringida a aspectos formais, sempre mais limitados; como o cívico, onde o envolvimento das populações e dos cidadãos individualmente considerados nos destinos do País é cada vez menor, porque menos estimulado ou menos apoiado (caso do movimento associativo); como o cultural, onde apesar de muitas e interessantes manifestações, estas se destinam predominantemente a elites e os estímulos junto dos mais jovens são muito reduzidos; como o ético, com os exemplos pouco edificantes dos representantes dos poderes em casos de corrupção conhecidos ou suspeitados, com o desprestígio da justiça, provavelmente consequência principal de legislação inadequada, mas cuidadosamente elaborada para discreto benefício dos poderosos; e com os valores dominantes do sucesso individual sem olhar a meios, do individualismo exacerbado, da aceitação propagandeada de uma sociedade de injustiça e desigualdade social, temperada de uma caridadezinha quanto baste.

Haverá uma saída a curto / médio prazo?

Olhemos sucintamente os planos financeiro, económico e social: uma dívida externa elevada, pública, mas principalmente privada, com a banca descapitalizada (apesar das ajudas); um aparelho produtivo a ser extensa e servilmente destruído, desde o primeiro governo de Cavaco Silva; um mercado interno em retração, provavelmente cada vez mais acentuada dado o ataque aos direitos laborais e o crescimento do desemprego; a errada opção de privilegiar as exportações, constrangidas pela estagnação europeia; as dificuldades e ausência de apoios suficientes às pequenas e médias empresas, cujo peso é determinante no tecido produtivo do país; um desemprego descontrolado; a diminuição da parte dos salários no rendimento nacional; o nível muito baixo das reformas e o crescimento das manchas de pobreza.

A culminar tudo isto, uma política cega pela vulgaridade do neoliberalismo, sob a inadequação e malvadez das receitas da troika FMI/UE/BCE, condicionada pela inexperiência dos governantes e submetida às ordens das maiores potências europeias e a um patronato que ainda vegeta em ideias do século XIX.

Mas o descontentamento vai aumentando. Seria impensável que assim não fosse: a política em curso ofende as expectativas e os direitos de trabalhadores, de jovens e de idosos, dos estudantes, das forças de segurança e das forças militares, dos pequenos e médios empresários e de todos os sectores do funcionalismo público.

O que há de novo é que a resignação vai dando lugar à contestação e ao protesto.

Aí estão a comprová-lo as manifestações, concentrações, vigílias, abaixo-assinados e petições, vaias aos governantes e ao PR nas suas deslocações, contestação crescente na blogosfera. E acima de tudo a enorme manifestação sindical de 11 de Fevereiro, que no dizer da CGTP-IN transformou o Terreiro do Paço em “Terreiro da Luta” e a coragem desta em convocar uma greve geral para 22 de Março.

Esta luta alargada pode impor que a política nacional responda às reais necessidades do nosso País, na correcção dos desequilíbrios antes assinalados, em vez de estar subordinada à troika - instrumento do grande poder financeiro.

É isto possível na União Europeia e no espaço do euro?

A integração europeia sempre foi um projeto do grande capital europeu. Mas incorporou ideais democráticos e a defesa dos valores da liberdade, instituiu o modelo social europeu, inscreveu como seus princípios a coesão económica e social e a harmonização no progresso. Outros povos europeus – gregos, espanhóis, franceses, irlandeses, ingleses, belgas – lutam contra a actual política retrógrada imposta pela UE e respectivos governos. Os portugueses não estão sós na sua luta; e hão-de estar determinados a não seguir o caminho que nos esperará se continuarmos a deixar que aqui se reproduzam as selváticas medidas impostas ao povo grego.

Por cá, na Seara Nova, vamos dando o contributo possível na defesa dos valores democráticos, na promoção da cultura, na exigência de justiça social, na denúncia da política que não olha aos interesses do povo, tudo em respeito das tradições nobres desta revista de 90 anos.

Estamos a comemorar o 90.º Aniversário em justa homenagem aos que construíram e mantiveram esta revista, sempre num plano elevado que a colocam como uma referência da nossa democracia e da história portuguesa do século XX.

Dentro das comemorações “90 Anos Seara Nova” este é o terceiro número da revista que dá destaque ao 90.º Aniversário. Já realizámos duas Conferências Seara Nova, sob os temas “O Projecto Seara Nova” e “Leituras da Crise”, que foram assinaláveis êxitos, pela qualidade das intervenções dos oradores, pelo número de presenças e pela elevação dos debates. Inauguramos no Palácio Galveias, gentilmente cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, a Exposição Itinerante que tem por título “90 Anos de Intervenção Cívica e Cultural”, onde se manterá até ao final de Abril.

Entre outras iniciativas, está em preparação a 3.ª Conferência, sobre Comunicação Social, prevista para finais de Maio e organiza-se a lista das entidades e locais por onde circulará a Exposição. Esperamos contar com a presença dos nossos assinantes e leitores.

Nestas ações temos o apoio de uma Comissão de Honra, identificada noutro local desta revista e o patrocínio institucional da Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Casa Museu Abel Salazar, Fundação Mário Soares e Fundação José Saramago.

As comemorações do 90.º aniversário da Seara Nova têm igualmente servido para divulgar a revista e é com agrado que registamos o número crescente de visitas ao sítio da internet inaugurado no âmbito destas comemorações e os quase 2.000 amigos que nos seguem no facebook.

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