Amadeo de Souza-Cardoso - Para além das dicotomias

Nº 1747 - Verão 2019
Publicado em Cultura por: Helena de Freitas (autor)

“Na Cidade perdeu ele [o Homem] a força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda (...).”

Eça de Queirós, “A cidade e as serras

O romance publicado em 1901, de Eça de Queirós, é um padrão da sociedade portuguesa do início do século e sinal desta dicotomia, entre um país maioritariamente rural, pobre (as serras) e a projecção do seu horizonte cosmopolita, focado na cidade de Paris, (a cidade) para onde alguns privilegiados partiam (1º ciclo de imigração portuguesa laboral para França só teve inicio a partir de 18). O título e o conteúdo deste romance reúnem o fundamental desta dicotomia que, como em todas opõe 2 elementos opostos.

Jacinto, de família portuguesa exiliada em França, o personagem principal desta história sai de Paris, centro cosmopolita e vai para Portugal na alegria de reencontrar os verdadeiros valores locais. A citação ilustra este espírito e propósito.

Amadeo toma esta mesma direcção, mas em sentido contrário. Parte para Paris (em 1906, 5 anos depois da publicação deste livro, no dia em que completa 19 anos) motivado pela vontade de se posicionar no centro de todos os debates artísticos. Para a sua família, ele partia para estudar Arquitectura, donde rapidamente se afastou, para se iniciar numa fulgurante carreira de artista plástico. A obra e a biografia de Amadeo são conhecidas do público francês, em 2016 uma exposição do artista português foi apresentada pela Fundação Gulbenkian nas salas do Grand Palais. Exactamente no mesmo espaço onde Amadeo expôs uma última vez em Paris em 1912.

O tempo de vida de Souza-Cardoso foi curto e intenso e dele se disse que foi a primeira descoberta de Portugal na Europa do século XX (Almada Negreiros).

Trato portanto de um artista português, com um percurso em vida, central e europeu. Nasceu em 1887 em Manhufe, numa aldeia do Norte de Portugal e morreu precocemente em Espinho, vítima não da guerra, mas da gripe pneumónica, em 1918. Morto precocemente e no auge de um processo criativo fulgurante, o seu desaparecimento abrupto marcou para sempre a evolução da arte moderna portuguesa, o seu esquecimento e silenciamento durante o longo período da ditadura fascista em Portugal, condicionou o percurso internacional de consagração do artista.

Detectam-se dois arcos temporais decisivos no seu percurso artístico. O tempo de Paris (1906-1914) e o regresso a Manhufe, a sua aldeia natal no norte de Portugal (1914-1918). Neste período de pouco mais de uma década, o artista vive entre estes dois mundos, permanentemente insatisfeito, e em constante instabilidade geográfica.

Em Paris, centro eufórico de todas as rupturas, orienta a sua curiosidade para os artistas que rompem com os cânones convencionais. Amadeo foi também autor dessas rupturas, e rapidamente entrou no circuito internacional desenvolvendo um diálogo criativo, crítico e não epigonal com os seus companheiros de trabalho: Modigliani, Brancusi, Archipenko, o casal Delaunay, Otto Freundlich, Boccioni, Apollinaire, entre outros, criando redes com agentes artísticos, editores ou curadores como Walter Pach, Wilhelm Niemeyer, Ludwig Neitzel, Herwalth Walden, ou Adolf Basler. Em 1908, quando se instala na Cité Falguière (Montparnasse), relaciona-se particularmente com alguns que, como ele, se encontram à margem dos movimentos programáticos, como Modigliani ou Brancusi. Este proclamava então «Nous en avons assez des académies cubistes et futuristes: laboratoires d’idées formelles»1.

Amadeo inscreve-se plenamente no espírito e nas práticas das vanguardas: utiliza a imprensa e também a partir dela projecta a sua própria imagem, fazendo um álbum, XX Dessins, verdadeiro portfolio que cuidadosamente e com muita disciplina vai colocar nos principais canais de difusão: em Portugal e em França, mas também em Espanha, Itália, Alemanha, EUA, Canadá e Inglaterra - Esta vasta e cuidada operação só pode ser interpretada como uma estratégia premeditada da sua afirmação, como autor.

Nos anos 1911, 12 e 13 aqueles em que se concretizaram as grandes manifestações colectivas dessa profunda revolução, Amadeo participou nessas exposições, e foi imediatamente reconhecido como fazendo parte dela, como os Salons de Paris (1911-1912), o Erster Deutscher Herbstsalon, de Herwald Walden organizado pela galeria Der Sturm, Berlim (1913) a convite do casal Delaunay, e o Armory Show (1913), pela mão do seu grande amigo e protector, Walter Pach. Sobre este grande acontecimento de arte internacional Amadeo é referenciado como o artista com assinalável êxito crítico e de mercado tendo vendido 7 das suas 8 obras apresentadas, algumas delas hoje presentes em museus americanos, como o Art Institute of Chicago.

A estas duas grandes últimas exposições que refiro, na Alemanha e nos EUA, junto outras que sinalizam uma tomada de posição do artista no diálogo das vanguardas internacionais e que o posicionam com clareza nesse debate.

Amadeo expõe no London Salon, em Londres (em 1914), e em Hamburgo, na Escola de Artes e Ofícios, a partir de uma rede de contactos o ligou a Wilhelm Niemeyer (secretário do Sonderbundausstellung em Colónia) através do seu amigo Otto Freundlich. Um novo mapa expositivo apresenta-se para Amadeo, na Europa Central e na América. E sinalizo um dado biográfico importante, a partir do Salão de Outono de 1912, não há registo de mais nenhuma exposição do artista em Paris, o que é um facto interpretável.

Amadeo artista atento e informado, a par de todas estas discussões que atravessavam as vanguardas do seu tempo, assume o desvio: Le tout Paris ne m’enthousiasme pas, je ne le trouve même assez inspirade. Je pense avoir finalement bien fait de n’avoir rien envoyé pour le Salon d’Automne.

Uma vez instalado em Portugal (para onde viajou para se casar e onde foi surpreendido pela guerra no verão de 1914) desenvolve um vocabulário temático de grande originalidade e que resiste a essa polémica dicotómica entre um sentimento nacional e cosmopolita, avançando para um modelo de fusão misto, hibrido e inclassificável. Para ládas discussões dos movimentos, das escolas, rejeitando-as vigorosamente (as suas declarações são claras: les écoles sont mortes) e afirmando a sua profunda individualidade. Com isso, construiu a sua marca reivindicando a sua diferença, a sua força, naquilo que virá também a ser a sua fraqueza. Só em Portugal Amadeo entrou numa convivência (nacional) com o grupo chamado “futurista” português, depois das logradas e frustrantes experiências com a Corporation Nouvelle”, imediatamente anteriores. (e também com alguma distância, que era também a distância geográfica de quem vivia e trabalhava intensamente numa aldeia a mais de 80 Km de Vila do Conde e a quase 400 km da longínqua capital lisboeta, onde quase tudo se passava).

A sua obra jovem, esquiva a escolas e a definições, em consciente negação dos “ismos” do seu tempo, heterodoxa eexperimental por natureza, imprevisível nas suas deslocações, está longe de percorrer um caminho de linearidade. Ele afirma-o: Tenho progredido consideravelmente. Nada tem que ver a minha maneira de sentir e compreender com futuristas ou cubistas e se alguma coisa tem, é a justificação do contrário… o futurismo é um truc charlatão sem sensibilidade nem cérebro, camelote do cubismo; o cubismo uma caligrafia mental e literária. Sobre coisas de arte, trabalho. E sobre isto nada tenho a dizer porque me parece que cada vez me ignoro mais a mim mesmo. (carta ao tio Francisco em 1913).

“Le Saut du Lapin”, (1911) pintura que o artista apresentou no Armory Show adapta-se à sua identidade: a imagem do animal que em fuga dos predadores, salta em Zig-zag, em movimentos inesperados, em caminhos de desvio e de demarcação pessoal. A sua paleta forte e inconfundível, a expressão do movimento e da velocidade, a liberdade temática, assim como a utilização de signos gráficos preferenciais, (como os círculos que a atravessam desde 1911 e que apresentam múltiplas variáveis à medida que o artista progride e inicia novas etapas experimentais, mas que são constantes e identificáveis) são características próprias de um autor que tem consciência da sua “marca” e do modo como a quer comunicar.

O lugar de partida

O lugar de partida (a pequena aldeia de Manhufe no Norte de Portugal) é a primeira marca de identidade do artista e persiste como matriz ao longo das múltiplas etapas do seu trabalho. Mas ‘lugar’ não é aqui apenas paisagem ou representação da natureza; antes engloba aquilo que Amadeo considerava, em simultâneo, ser sua pertença: a paisagem natural mas também a cultural. E foi sobre ela que exerceu uma acção transformadora, sobre o que poderia ser um conjunto de signos conservadores e imutáveis: montanhas e objectos quotidianos, letras de canções e bonecas populares, instrumentos musicais regionais, castelos imaginados e interiores domésticos familiares, bosques e tipologias humanas locais.

Estes elementos são representados segundo soluções estilísticas marcadas pelo hibridismo cubista, futurista, órfico e expressionista que percorre a sua obra. Amadeo incorpora os elementos do mundo rural e familiar e os elementos característicos do mundo moderno numa mesma dinâmica e, sem hierarquia explícita, atinge um momento em que cruza o lugar de origem com a vertigem (do mundo moderno) das máquinas, dos manequins mecânicos, dos fios de telégrafo e telefone, das lâmpadas eléctricas e reclames publicitários, das emissões de rádio, das azenhas, dos perfumes, do champagne…

Urbano por vontade e determinação, a verdade é que o artista se mantém ligado ao movimento ondulatório das suas montanhas, que repetidamente pinta e que servem de “fundo” a obras de muitas das fases. E é exactamente sobre estas montanhas que se faz auto-representar, vestido de pintor em pose “grecquiana” (El Greco)2.

Na correspondência que trocou com a sua mulher, a paisagem natal é o tema mais sensível: a cada passo parávamos maravilhados com a beleza grandiosa deste país gigante. As montanhas têm um estilo de linhas que dá vontade de lhes passar a mão pelo dorso3.Mas a cabeça orienta-lhe o destino para o centro do mundo, Paris: Aqui respira-se, em Portugal abafa-se, escreve à sua irmã.

E assim voltamos à questão de uma condição dicotómica de onde o artista português se vai desviar, acabando por construir na última fase da sua obra, um percurso invulgar e inovador no contexto das vanguardas internacionais.

Amadeo de Souza-Cardoso oferece-se deste modo aos historiadores de arte internacionais como um autor privilegiado para o estudo da história conectada, desenvolvida por Béatrice Joyeux-Prunel (Les avant-gardes artistiques 1918-1945. Une histoire transnationale); um artista com um percurso intenso entre Paris e uma pequena aldeia no norte do seu país, e que a dado momento do seu percurso, exactamente no momento do seu regresso definitivo a Portugal, e em perda dos seus referentes cosmopolitas, constrói a parte mais importante do seu trabalho, avançando num modelo fusional entre centro e periferia.

Na sua fase mais complexa, síntese de muitas das suas experiências e previsível ponto de partida para outras e exasperado pelo sempre adiado regresso a Paris, que várias vezes anuncia, Amadeo concentra toda a sua energia na construção de uma série fulgurante, no lugar isolado de Manhufe, onde poderia ter ficado perigosamente refém da inércia local, longe das vanguardas internacionais. Amadeo é muito claro nesse desejo de regressar a Paris, que permanentemente evoca nas cartas aos seus amigos. Numa carta a Walter Pach afirma em 1916: Mas quanto ao resto é como se eu estivesse em Paris, pois conto partir, o mais tardar a 3 de janeiro – o mais tardar! – (na verdade só regressou em 2016, 1 século depois).

As obras finais de Amadeo resistem a leituras classificativas, a narrativas fechadas, também porque cada signo se abre a múltiplos significados. O artista cria um jogo de polissemias coincidente com a leitura que faz de si mesmo (Eu tenho mais fases que a lua, diz em carta a Lucie, sua mulher, em 10).

A minha convicção é de que a sua obra só poderá ser compreendida nessa pluralidade, que o próprio artista incorpora e que a recepção critica e interpretativa da sua obra tem vindo a testemunhar. Ou seja, estou certa de que no seu processo criativo, Amadeo abre, também para si próprio, uma multiplicidade de sentidos e de significados. Defendo por isso uma linha interpretativa da obra de Amadeo mais expansiva que unívoca.

Interrompido o seu trabalho no início de uma fase de maturidade, ficaremos para sempre privados do desenlace destas pesquisas, mas na convicção de que ocupam um lugar pertinente nos debates da modernidade.


1S.Fauchereau, Sur les pas de Brancusi, Paris, 2016

2 El Greco, Caballero de la mano en el pecho, 1578-1580. É relevante a realização no mesmo período do Retrato de Paul Alexandre (1913) feito por Amedeo Modigliani.

3 Carta de Amadeo a Lucie. Manhufe, [1910]. Biblioteca de Arte, FCG, ASC 12/15.

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