José Afonso - 90 Anos Os Cantos Intemporais do nosso (des)contentamento

José Afonso foi um homem do seu tempo e dos tempos que viriam: assumindo-se como legítimo herdeiro e usufrutuário de tradições do canto de resistência nas fileiras das lutas pela liberdade, interpretou as urgências e as necessidades do seu tempo conferindo-lhes horizontes de futuro que permanecem como estímulos fundamentais no nunca terminado processo de conquista da dignidade humana numa “cidade sem muros nem ameias”. A intemporalidade das suas cantigas – mesmo naquelas cujo processo de criação parece confinado a um quadro histórico muito concreto e historicamente definido – radica justamente nessa genial capacidade de antecipar o futuro conquistando vontades e sensibilizando consciências para os amanhãs por fazer.

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Recursos e Impactos Ambientais

Recursos, produção e impactos

Ao longo do século XX, o volume de materiais anualmente extraídos da natureza (biomassa, minerais e rochas industriais, minérios e combustíveis fósseis) aumentou 8 vezes, a ritmo superior ao do crescimento populacional (que foi 4 vezes), atingindo 60 mil milhões de toneladas em 2000. A intensidade de utilização de materiais, a taxa metabólica, duplicou, atingindo 12 toneladas por ano per capita. Entretanto, a actividade económica, aferida em termos de PIB, cresceu ainda mais rapidamente, 22 vezes, de modo que a intensidade material (toneladas per unidade de PIB) declinou para metade. Entretanto, no último meio século o volume do comércio internacional de materiais triplicou. Em que se suporta o “crescimento económico”?

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Da Maioria de Esquerdas ao «Governo Pisca-Pisca»

I - Introdução

O governo minoritário do PS, apoiado em três acordos escritos para uma maioria de esquerdas (PS com BE, PCP e PEV), que nos governou durante toda a XIII Legislatura, suscitou desde o seu início muitas reservas, sobretudo entre os seus detratores. E tinha também associadas muito baixas expectativas de sucesso e durabilidade, mesmo entre os seus apoiantes da primeira hora. As reservas formuladas vieram a revelar-se infundadas e o desempenho do governo e da maioria de esquerdas superou todas as expectativas. Finda a XIII Legislatura e com novas eleições gerais realizadas em 6 de outubro de 2019, as quais deram já início à XIV Legislatura, impõe-se um balanço do «governo de esquerdas», bem como uma análise preliminar do seu sucedâneo na XIV Legislatura, aqui designado como «Governo Pisca-Pisca». Antes de prosseguir, esclareça-se, à laia de declaração de interesses, que tenho sido um apoiante desta solução política não apenas desde a primeira hora, mas mesmo avant la lettre. Ver Freire, 2017.

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A Seara Nova renovou o seu visual

Porque «...todo o mundo é composto de mudança... » (Camões), achamos por bem proceder à renovação do aspecto gráfico geral da nossa Seara. Agora, prestes a tornar-se centenária, pensámos que merecia este tratamento que a irá tornar mais atrativa e de fácil leitura. Isto sem que sejam prejudicados os conteúdos que são a razão maior para continuar a existir.

E, a propósito, passamos a citar o início do editorial do seu primeiro número saído em outubro de 1921. «A Seara Nova representa o esforço de alguns intelectuais, alheados dos partidos políticos mas não da vida política, para que se erga acima do miserável circo onde se debatem os interesses inconfessáveis das clientelas e das oligarquias plutocráticas, uma atmosfera mais pura em que se faça ouvir o protesto das mais altivas consciências, e em que se formulem e imponham, por uma propaganda larga e profunda, as reformas necessárias à vida nacional. Não comunga ela no vão e pernicioso sofisma de que são os políticos os únicos culpados da nossa situação...».

Passemos para o nosso tempo, inverno de 2019. Mais um inverno do nosso crónico descontentamento?

Em grande parte sim, porque continuamos a ver o caudal das mais diversas misérias aumentar e ultrapassar por vezes mesmo o que tínhamos por inimaginável. Mas ao lado desse caudal de características negativas, outro caudal de de carácter positivo engrossa quer na qualidade das relações dentro das diversas “células” da sociedade quer na crescente produção de ciência que para além do bem estar que proporciona contribui para o desmoronamento de mitos e certezas que se tinham por eternas.

Entretanto, no nosso país, é de assinalar a entrada em funções do novo governo saído das eleições legislativas de outubro, eleições que, proporcionando a entrada de novas forças políticas no parlamento (com muito pequena expressão), não alteraram significativamente a correlação anteriormente existente. Poder-se-á mesmo afirmar, com as devidas reticências, que a esquerda continua em maioria. E, porque é também nossa a batalha do progresso e da justiça com vista a que o caudal dos nossos descontentamentos se vá progressivamente reduzindo, formulamos votos de que a positiva experiência governativa anterior inspire, nas actuais circunstâncias, uma acção de entendimento produtivo no sentido da construção de soluções efectivas e consistentes para os mais graves problemas do país nomeadamente os de carácter social.

O mundo, o nosso grande e o nosso pequeno mundo, estão, por via do nosso crescente conhecimento, cada vez mais nas nossas mãos.

Tratêmo-lo bem!