Tribuna Pública – “Évora antes de Abril”

Antes de Abril, de norte a sul de Portugal, era assim!…

Quem lutasse contra a ditadura fascista era perseguido, preso e torturado nos calabouços da PIDE. Eram proibidas e ferozmente reprimidas quaisquer tentativas de greves ou manifestações contra o Governo. Era proibida a existência de Partidos Políticos, excepto a União Nacional. As eleições eram todas uma farsa. Quem ousasse candidatar-se pela Oposição já sabia que ia parar à lista negra da PIDE e, mais tarde ou mais cedo, à prisão. Na Presidência da República, no Governo, nas Câmaras e nas Juntas de Freguesia só estava gente da confiança do aparelho da ditadura, isto é, gente da União Nacional. Nas nossas cidades, vilas e aldeias, chorava-se a morte de entes queridos nas guerras coloniais. Além de muitas outras malfeitorias do regime fascista, não posso esquecer a existência dos famigerados bufos que, a troco de umas migalhas, nos espiavam e depois iam contar à PIDE, com quem nos tinhamos encontrado, onde tinha sido o encontro, a que horas e o que tinhamos conversado, se tivessem conseguido ouvir.

E em Évora, como era antes de Abril?

Depois de, em junho de 1974, ter sido designado para a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Évora, deparou-se-me uma realidade que eu não conhecia ou conhecia muito mal. Ao visitar as aldeias do nosso Concelho e os bairros da nossa cidade, apercebi-me da existência de um terrível legado da ditadura.

Além de outras situações altamente deploráveis, no fornecimento de água potável às populações e no saneamento encontrei uma realidade que eu, certamente por viver na cidade, não conhecia. Eram situações inimagináveis!

Em traços, necessariamente breves vejamos então o que fui encontrando nessas visitas.

A ÁGUA

Em S. Manços não existiam problemas de fornecimento de água mas a distribuição domiciliária estava longe de chegar a todas as residências.

Na Azaruja, em S. Miguel de Machede, em N. Sra. de Machede e em Valverde já existia uma rede rudimentar de distribuição domiciliária mas que não chegava a todas as casas. A água vinha de poços mas não era suficiente para as necessidades dos moradores.

Nos Foros do Queimado e em S. Brás do Regedouro a população ia buscar a água a poços abertos pela própria população.

Na Vendinha carregavam a água de um poço que era claramente insuficiente para as necessidades dos moradores. Estava adjudicada a abertura de novo poço.

Torre dos Coelheiros, iam buscar a água a um pequeno poço. Na altura já havia  um projecto para uma conduta de ligação a S. Manços.

Na Boa Fé existia um único fontanário para toda a população.

Em S. Sebastião da Giesteira, a população ia buscar a água a um poço aberto pela população mas estava já a abrir-se um novo poço.

Em Guadalupe iam buscar a água a poço aberto pela população mas estava a iniciar-se a construção de um novo poço mais profundo.

Na Graça do Divor, donde aliás vinha a água para a cidade a população transportava a água de fontes ou de poços, alguns deles com água imprópria para consumo.

Aos chamados bairros clandestinos não chegava água da rede. Nessa altura estavam a construir-se redes de distribuição domiciliária no Bairro do Granito, dos 3 Bicos, do Bacelo e de S. José da Ponte.

Resumindo, nas nossas aldeias não havia nenhuma Estação de Tratamento de Águas (ETA). A água consumida não era tratada e a população carregava a água para as suas casas em bilhas ou noutros recipientes.

E o fornecimento de água à cidade?

A água para a cidade vinha sobretudo da barragem do Divor e, uma pequena quantidade, dos poços da Graça.

Em 1974/75, Évora sofreu uma terrível falta de água. A barragem do Divor secou!! A cidade de Évora ficou assim limitada à água dos poços da Graça e de alguns poços de particulares que a Comissão Administrativa da Câmara foi conseguindo contratualizar. À cidade chegava menos de 20% da água que necessitava. Foi necessário recorrer a um severo racionamento. Havia água na rede só durante 2 a 3 horas/dia.

Não posso deixar de referir um caso aberrante e que é bem demonstrativo das prioridades do regime fascista. Existia uma disposição no Regulamento de Exploração da barragem do Divor que indicava a obrigatoriedade de se interromper o fornecimento de água para rega quando se atingisse a cota correspondente ao consumo de água da cidade durante 4 anos (2 mil milhões de m3). A Associação de Regantes fez tábua rasa dessa disposição e gastou água até a barragem secar. Os governantes locais e a nível nacional nada fizeram para impedir que os senhores das terras desrespeitassem a lei. A vontade dos latifundiários era mais forte que a lei!

O SANEAMENTO

No que dizia respeito ao saneamento, a situação era ainda pior do que o referido para a água.

Nalgumas ruas de S. Manços, Azaruja, S. Miguel, e Valverde já existia rede de esgotos, embora não chegasse a todas as ruas.

Nos bairros não clandestinos e na cidade também havia rede de esgotos mas existiam bolsas em bairros da própria cidade onde os esgotos corriam a céu aberto. Lembro-me de ver esgotos a céu aberto numa zona do bairro da Srª da Glória.

Nos Canaviais, no Bairro de Almeirim e, na generalidade dos chamados bairros clandestinos também não existia rede de esgotos.

Não existia no Concelho uma única Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR).

Os esgotos da cidade eram encaminhados para 8 hipotéticas valas, hipotéticas porque, excepto nalguns dias de inverno, não corria lá água nenhuma. Essas valas iam desaguar no Xarrama, normalmente também sem água. Quem morasse a menos de 200m dessas valas ou do Xarrama, como eu por exemplo, suportava durante a maior parte do ano, um cheiro nauseabundo.

O que aqui relato, de forma bastante abreviada mas realista, mostra claramente o tipo de herança que Évora recebeu dos governos e da Câmara depois de 4 décadas de fascismo.

Os eleitos de Abril, nos Governos e na Câmara Municipal, não necessitaram de 4 décadas para darem melhores condições de vida às populações do nosso Concelho. Em pouco mais de uma década reverteram a maior parte do terrível legado da ditadura.