Testemunhos da História – “O 25 DE ABRIL NA CADEIA DO FORTE DE CAXIAS”

Foram-se somando sinais inusitados: as celas não foram revistadas, o almoço chegou tarde, não houve recreio, a guarda republicana passou a usar capacete e denunciava nervosismo. Da boca dos guardas prisionais nada transparecia. A ansiedade entre os presos políticos foi crescendo. Aumentou a pressão sobre os guardas para obter informações. Mas o mutismo permanecia.

Ao cair da noite, foi percebida uma mensagem enviada da buzina de um carro; teria havido um Golpe de Estado; a informação foi anunciada pelas janelas, em alta voz. Sabia-se da preparação de vários golpes; um seria para uma política ainda mais à direita. A nossa eliminação seria uma possibilidade. Iria ser uma longa noite, uma noite em sobressalto e em vigília.

Na manhã do dia seguinte, a Cadeia do Forte de Caxias foi invadida por Paraquedistas; a guarda republicana sumira-se. E vieram também os Fuzileiros que ousaram abrir-nos as portas das celas e nos anunciaram a liberdade. Estremunhados, apalpando terreno, invadimos os corredores e fomo-nos abraçando. Acabados de vir da tortura do sono e de violentos espancamentos, dois não conseguiam expressar qualquer sinal de contentamento: um, com a barba por cortar e a cair de sono, não queria acreditar no que estava a acontecer e afirmava que tudo aquilo não passava de um cenário montado pela PIDE… talvez devido às alucinações da tortura do sono; o outro queixava-se de dores em todo o corpo; tinha a cabeça coberta de hematomas, com várias manchas negras e vermelhas. Lentamente, fomos acreditando que a libertação seria possível.

Depois de uma noite angustiante, ficámos a saber que estávamos a salvo de qualquer atrocidade. As emoções soltavam-se. Ouviam-se gritos de euforia e vozes de incentivo. Os mais sensíveis choravam convulsivamente, não conseguindo segurar as lágrimas da liberdade. Um vórtice de ideias trespassou pelas nossas cabeças. A possibilidade da democracia, da liberdade e da justiça para o povo aliviava-nos de um enorme peso. A possibilidade de se acabarem as prisões políticas, as torturas, a clandestinidade e de saltarmos directamente para a liberdade, galvanizava-nos e dava-nos uma imensa alegria. A confraternização era geral e alvoraçada.

Passámos ao pátio da cadeia, onde estavam jornalistas em reportagem. Eram entrevistadas as figuras mais conhecidas; eram intelectuais, escritores, jornalistas, advogados, artistas, padres, arquitectos, estudantes, operários. Mas nas costas do Comandante dos Fuzileiros, um oficial dos Paraquedistas deu ordem para regressarmos às celas, porque nem todos iriam ser libertados. Era já o resultado do confronto entre os oficiais do Movimento das Forças Armadas e um General que tinha um projecto pessoal e autoritário. Entretanto o oficial que comandava os Fuzileiros Navais foi dizendo que iriamos ser todos libertados, quaisquer que fossem as ordens; e instalou o seu gabinete numa sala da cadeia, com o pormenor de colocar por detrás da sua secretária um enorme cartaz vermelho com o rosto de Che Guevara, que por artes mágicas ali surgira. Mas era tempo de decisões. E os presos políticos decidiram que “ou saímos todos ou não sai ninguém”.

Populares e advogados exigiram a libertação de todos os presos políticos junto à Cadeia do Forte de Caxias

A peripécia da libertação dos presos políticos mobilizou um batalhão de eminentes advogados; a sua argumentação foi insustentável para o novo poder político. E os oficiais do MFA decidiram que todos os presos políticos seriam libertados, ganhando a primeira batalha de uma luta contra um novo autoritarismo. Para lá das muralhas do Forte, uma multidão aguardava a nossa chegada gritando “o povo unido jamais será vencido”.

Na madrugada de 27 começou a nossa libertação total e definitiva. Os portões da cadeia abriram-se; um a um, fomos saindo e imediatamente aclamados. Todos espreitavam a sua vez de nos abraçar. Era um mar de braços e de abraços que escondiam muitas lágrimas de alegria. Alguns eram levados em ombros. Saíam em liberdade os que em nome da liberdade tinham sacrificado a sua liberdade. Muitos deslocaram-se à Baixa de Lisboa para cheirar a revolução e sentir a liberdade em locais onde só tinham conhecido o cinzentismo da ditadura; desfilavam caravanas a vitoriar a Revolução, bandeiras vermelhas coloriam o Rossio; era um cenário inimaginável há apenas dois dias.